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19 de dezembro de 2006

Jesus muçulmano


Texto publicado no jornal Público na 3ª feira, 19 de Dezembro de 2006

Jesus muçulmano

Faranaz Keshavjee
Membro da Comunidade Ismailita


Jesus surge no Alcorão e nos Evangelhos (ditos) Muçulmanos como o Profeta do Amor; o Guia das virtudes cardinais: a Paciência, a Humildade, a Renúncia ao materialismo, o Silêncio. Jesus também aparece como o "obreiro dos milagres"; o "viajante"; o "arrependido"; o "Redentor". Jesus é para os muçulmanos o Selo dos Santos. Jesus, é o grande Sufi. Jesus também é muçulmano!

Conta-se que no tempo da Dinastia Buyida que governou a partir de Bagdad, aí entre os séculos X e XI, surgia um tipo de humanismo que Joel Kraemer chamou de Renascimento do Islão, anterior ao Renascimento europeu. Num contexto que merece consideração até para entender os fenómenos de diversidade étnica e religiosa que hoje afligem o mundo ocidental relativamente à guerra civil no Iraque, intelectuais e poetas, teólogos e juristas desse tempo conversavam sobre vários assuntos de interesse e relevância cosmopolita.

Nesse período da história Al-Tawhidi e Abu Sulaiman discutiam sobre pertenças religiosas e este último questionava Al-Tawhidi sobre a sua escolha pessoal. Perguntava Abu Sulaiman, se todas as religiões são iguais, isto é, se conduzem os seres humanos ao conhecimento do divino, da inspiração divina para dar um sentido à vida, e se Deus é só um, mas os caminhos para O conhecer podem divergir, por que razão era ele um muçulmano e não um crente de outra religião qualquer? Al-Tawhidi respondera: "Sou muçulmano porque experimentei este caminho, e sinto-me confortável assim.

É como se imaginássemos que estou a caminhar pelo deserto num dia em que o sol se encontra a brilhar com intensidade e calor mas onde, subitamente, surgem nuvens pesadas e cinzentas no céu, e caminhando percebo que pode estar a chegar uma tempestade; um pouco mais adiante, procurando refúgio e abrigo, vejo uma tenda que me parece segura e confortável e entro nela. Lá fora a chuva chega e é cada vez mais intensa e forte e eu sinto-me abrigado e protegido nesse lugar. De repente, noto que num canto da tenda está uma brecha, por onde entra água, e acaba por chover também um pouco dentro de minha casa. Olho para fora, espreito e avisto uma outra tenda, lá adiante, que me parece também um bom abrigo, mas observando com maior atenção, verifico que também nessa tenda existe uma outra fenda, não exactamente no mesmo lugar desta, mas há uma brecha noutro lugar, por onde a água também entra.
E penso assim para mim: ao invés de sair daqui, de onde estou, e atravessar este terreno lamacento, e molhar-me até chegar à outra tenda, onde também existe um buraco... deixa-me antes fazer desta onde estou a minha casa. E é assim que sou muçulmano!"

Inspirada por este sentido humanista e respondendo ao desafio lançado pelo Centro de Reflexão Cristã, fui estudar e conhecer Jesus - o Profeta do Islão. A investigação e reflexão sobre o papel que este Profeta maior teve para os muçulmanos e na história das civilizações islâmicas deixaram em mim uma profunda marca e convicção do quanto estamos todos, o mundo cristão e o islâmico, próximos uns dos outros.

Já tinha ouvido o Aga Khan, o Imã dos Ismailitas, dizer numa entrevista recente que não se pode pensar em choque de religiões quando existe tanto em comum entre as religiões de Abraão. De resto, também o sr. cardeal-patriarca Dom José Policarpo recentemente o disse, que há muito mais convergências do que divergências nestas tradições religiosas. Agora, reflectindo sobre o que fiquei a conhecer, compreendo melhor o que isto quer dizer.

Jesus é para os muçulmanos não só um Profeta mas também um Guia Espiritual que se demarcou de muitos outros tanto na forma como o Alcorão o descreve, enquanto um ayat (sinal) de Deus, mas também como um exemplo a seguir, na forma como os Evangelhos Muçulmanos proporcionaram o conhecimento sobre Jesus e moldaram a espiritualidade nas várias civilizações islâmicas. Jesus surge no Alcorão e nos Evangelhos (ditos) Muçulmanos como o Profeta do Amor; o Guia das virtudes cardinais: a Paciência, a Humildade, a Renúncia ao materialismo, o Silêncio. Jesus também aparece como o "obreiro dos milagres"; o "viajante"; o "arrependido"; o "Redentor". Jesus é para os muçulmanos o Selo dos Santos. Jesus, é o grande Sufi. Jesus também é muçulmano!

Se até hoje os muçulmanos, pelo menos os portugueses, assim como outros europeus e norte-americanos, vêm celebrando o Natal por questões culturais e sociais, porque coabitam espaços geográficos predominantemente cristãos e católicos, e às vezes até com um certo sentimento de heresia face às suas tradições religiosas originais, posso dizer com convicção, e com conhecimento, que devemos celebrar o Natal e o nascimento de Jesus numa perspectiva religiosa e espiritual de grande importância no mundo islâmico.

Numa postura semelhante à dos Buyidas, e já agora também à dos Fatimidas, seus contemporâneos, todos Shiitas, que são meus antecessores, e precursores de uma lógica de governação e de convivência humanista e pluralista, posicionei-me com alguma humildade perante o saber e o conhecimento sobre o Outro, e deixei-me "converter" à nobreza de uma grande espiritualidade que teve, e que tem ainda hoje, uma grande influência na forma como os muçulmanos aprenderam sobre a ética cosmopolita e os caminhos para conhecer Deus, que afinal, no entendimento do também Sufi Farid ud-Din Attar, somos nós todos juntos, o tal Simurgh da Conferência dos Pássaros, com as nossas diferenças, em plena harmonia e unidade.

Neste meu primeiro de muitos natais a celebrar, Inshallah, fica apenas um desejo sentido: que da mesma forma como quis conhecer o Outro, que afinal faz parte de mim, num desejo puro da minha curiosidade intelectual, humana e afectiva, também espero que todos esses "outros" tenham a mesma vontade e o mesmo desejo genuíno de conhecer também eles a "minha casa"; gostaria que re-conhecessem nos outros crentes, laicos ou religiosos, não apenas as diferenças, mas as mesmas ansiedades, as mesmas dúvidas, e a mesma esperança, que afinal nos tornam iguais, isto é, simplesmente humanos e vulneráveis perante as complexidades da vida.

1 comentário:

Fernando J. Cassola Marques disse...

Boa tarde, antes de mais, muito agradeço a publicação do vosso blog, é de uma riqueza fabulosa para quem como eu pretende estudar durante toda a vida as religiões em geral e muito em particular a religião cristã. Sou Licenciado em Ciências Religiosas e pretendia obter caso seja possível um contacto (email ou outro) para expôr uma situação muito concreta sobre o vosso centro, mas que devido à sensibilidade da mesma preferiría não a colocar aqui online.
Agradeço desde já a melhor atenção.