O CRC é um espaço de diálogo entre cristãos de diferentes sensibilidades, e entre cristãos e não cristãos.

23 de maio de 2007

O CULTO DO CORPO: ENCANTO DESENCANTO





Conferências de Maio questionam «O que nos faz correr»

Notícia publicada pela Agência Ecclesia, por Lígia Silveira a 09/05/2007, a propósito da entrevista feita a José Leitão e António José Paulino e que foi transmitida pela RTP2:

Prestes a celebrar 32 anos, o Centro de Reflexão Cristã surgiu de uma iniciativa de um conjunto de católicos, leigos e sacerdotes, com experiências e práticas diferentes, que pretendiam propor uma reflexão inovadora acerca da forma de viver a fé em Jesus Cristo, face um novo contexto social e cultural.
As práticas diversas de luta pela justiça e pela paz que unia os seus iniciadores, entenderam ser útil criar um espaço, da sua responsabilidade, onde pudessem perspectivar esse empenho à luz da fé, com base em temas que elegiam como questões importantes e prioritárias. O debate decorria de forma o livre, confrontando perspectivas com pessoas cristãs ou não, sempre aberto a outras confissões, numa grande abertura a não cristãos que manifestavam disponibilidade para discutir estas questões. “Mais não é do que a experiência de viver o cristianismo numa sociedade laica, plural e democrática, com base no diálogo”, sublinha José Leitão, membro do CRC, numa entrevista ao Programa ECCLESIA.
António José Paulino, membro da direcção, destaca que na criação do CRC, esteve a necessidade de as pessoas discutirem entre si e organizarem debates ao nível da teologia. Na história inicial, o “CRC promoveu muitos cursos, especialmente numa altura em que não existiam na sociedade portuguesa, em especial para leigos”.
Nos encontros do CRC destacam-se cristãos que sentem que pertencer a uma Igreja não é uma prática da esfera privada, mas antes amadurecida e reflectida com outras pessoas tornando essa acção mais eficaz. “Foi precisamente isso que ditou a minha participação nestes cursos, encontros e actividades”, sublinha o membro da direcção.
Esta é concretamente uma preocupação dos participantes do CRC. Ter uma prática cristã que vai além da sacramental e litúrgica. Todos os que participam nas actividades, sócios e não sócios, são pessoas muito activas na sua actividade profissional, que inevitavelmente levam para a reflexão promovida pelo CRC essas preocupações.
As pessoas que participam nas Conferências de Maio, talvez a iniciativa mais visível do CRC, são pessoas que “imbuídas das suas características enquanto cristãos” lêem a sua actividade profissional à luz da própria fé, aponta António Paulino..
O CRC foi pioneiro no debate inter religioso - sublinha José Leitão - mas o centro tem sido um espaço incubador de iniciativas que ganham autonomia e se projectam noutros espaços - exemplo disso é a reflexão sobre a exclusão e a pobreza “numa perspectiva analítica e científica”, promovida pelo Centro de Pesquisa Social.
A necessidade de renovar o estudo e ensino da História da Igreja, que contou com a iniciativa de José Matoso que animou um conjunto de jovens, teve o seu início no CRC, “havendo ainda outras iniciativas que infelizmente não as conseguimos projectar, como foi o caso da reflexão em torno da teologia africana”. Mas este quadro diverso mostra uma preocupação, diversa também, pelos problemas que vão acontecendo na sociedade portuguesa e internacional.
O homem e as suas preocupações é o centro dos debates do CRC. “O homem é o caminho da Igreja”, aponta José Leitão. Reflectindo sobre o homem e o significado da sua vida, “é que se faz o encontro com Jesus Cristo”. O Centro tem a preocupação de proporcionar uma reflexão sobre Jesus Cristo numa perspectiva o mais alargada possível - as conferências de 2006 foram precisamente sobre “diálogos com Jesus”.
Ultimamente as iniciativas do CRC têm-se centrado mais em conferências, dá conta António Paulino. Normalmente estas iniciativas são publicadas na Reflexão Cristã, publicação do CRC. Mais recentemente a criação de um blog permite a publicação de alguns textos das conferências “e até mesmo artigos de jornais que resultam de intervenções das conferências”. Este ano planeiam disponibilizar em pod cast o conteúdo das conferências, possibilitando chegar a pessoas que não apenas do circuito de Lisboa e num mais curto espaço de tempo.
Não há qualquer restrição à participação nas conferências, adianta António Paulino, que este ano decorrem sob o tema “O que nos faz correr”. “Qual o nosso objectivo, quais são as motivações que todos temos na nossa vida, são apenas algumas questões que se podem relacionar também com o quadro da correria que temos no nosso dia a dia”. O tema é depois dividido em quatro áreas diferentes, sendo a primeira sobre “Poder e prazer, força e fraqueza”, que contou ontem, dia 8, com a presença de Eduardo Lourenço.
A conferência é sobre “Troca, trabalho e dom”. “Uma das críticas que se ouve muito é que tem de ser tempo para fazer a sua carreira e deixam para trás muitas coisas da sua vida”. Esta área vai contar com a participação de Manuel Brandão Alves, Manuel Carvalho da Silva e Maria das Neves de Jesus.
Outra proposta é “O culto do corpo: encanto desencanto”, “e a evidência que ganha na sociedade moderna”, adianta António Paulino. Neste dia estarão presentes Eduardo Sá, Laurinda Alves, Helena Marujo e Luís Miguel Neto.
O último tema vai centrar-se na reflexão sobre “De que Espírito Somos?”, terminando o Pe. José Tolentino Mendonça, Pe. Anselmo Borges e Francisco Sarsfield de Cabral.
“O objectivo é incluir na discussão perspectivas abrangentes e pluralistas das temáticas, nas diversas formas que os convidados podem trazer para enriquecer o debate”, explica António Paulino.
As conferências de Maio são um espaço que “já ganhou uma marca”, aponta José Leitão, pois é uma iniciativa que já se prolonga há muitos anos, com a tónica de um debate plural sobre questões que se relacionam com o quotidiano, com a mutação social e cultural, com os desafios que se enfrentam e “no qual têm participado intelectuais católicos com os mais diversos trajectos, mas também não cristãos das mais diversas origens profissionais, etárias, de confissões religiosas ou sem ter qualquer referência espiritual.
Os participantes das conferências “dão um feedback de participação efectiva na sociedade”, fruto da reflexão proporcionada pelo conteúdo das conferências. “Há sempre um espaço para debate” e, relembra António Paulino, alguns debates «acesos», “facto revelador de uma apetência para este tipo de pessoas que não se resignam a pertencer à Igreja de um modo pouco activo, mas procuram, nestes espaços, o seu local de intervenção”.
O CRC vive da iniciativa dos seus associados, “cabendo aos seus associados dar a orientação dos debates e temas”, aponta António Paulino.
Os debates têm lugar às 18h30 de cada terça-feira, no Centro de Estudos da Ordem do Carmo (Rua de Santa Isabel, 128-130).


21 de maio de 2007

O que faz correr a JOC

Intervenção de Maria das Neves, coordenadora nacional da JOC - Juventude Operária Católica, na 2ª Conferência de Maio, 2007


O que vou partilhar convosco são sentimentos e convicções não apenas meus mas dos militantes da JOC – Juventude Operária Católica. No fundo vou partilhar aqui o que faz correr a JOC, e procurar chegar a cada vez mais jovens, especialmente os que sentem mais na pele as consequências do mundo do trabalho.
Para quem não conhece, a JOC é um movimento especializado da Acção Católica que procura formar jovens no projecto libertador de Jesus Cristo. O nosso método é a Revisão de Vida: ver a realidade, julgar e aprofundar a mesma realidade com as lentes do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja e agir, procurando através de acções transformadoras, pessoais e de grupo mudar essas mesmas realidades.

O que faz a JOC correr perante esta dimensão humana do trabalho é acreditar que é possível e urgente, tendo em vista a felicidade dos Homens, uma nova forma de olhar e viver o trabalho. Nós acreditamos na visão cristã reflectida no livro do Génesis e na encíclica “Trabalho Humano” de João Paulo II.

No livro do Génesis Deus, após ter criado o mundo, diz ao homem e à mulher “Crescei e multiplicai-vos. Enchei e dominai a Terra.” Deus confia à Humanidade a responsabilidade de continuar a obra da Criação que Ele iniciou. O meio que o Homem tem para desenvolver esta missão confiada por Deus, é o seu trabalho.

“Na Palavra da Revelação Divina acha-se muito profundamente inscrita esta verdade fundamental: que o Homem, criado à imagem de Deus, participa mediante o seu trabalho na obra do Criador e, num certo sentido, continua, na medida das suas possibilidades, a desenvolvê-la e a completá-la, progredindo cada vez mais na descoberta dos recursos e dos valores contidos em tudo aquilo que foi criado.” (LE, 25)

Esta missão é dada a cada um de nós sem excepção. Faz parte da existência e da vida humana dar continuidade à Obra que Deus iniciou. Ninguém pode demitir-se, nem ser excluído desta responsabilidade.

Todos têm o seu lugar. A obra é grande e cada um é chamado a dar o seu contributo conforme as suas capacidades e dons. Cada pessoa tem algo de importante a dar, que não é necessariamente igual ao que o outro pode dar, porque cada homem e cada mulher comporta unicidade e especificidade que o distingue dos outros. Cada um contém características, gostos, sensibilidades, capacidades e dons que postas ao serviço da comunidade tornam esta mais diversificada e por isso mais rica.
Deste modo, o trabalho humano é fonte de partilha e de solidariedade entre todos os Homens. É o meio de cada um pôr a render os seus talentos com vista a dar resposta às necessidades da Humanidade e por isso contribuir para o bem comum. A dignidade e importância do trabalho não vem do tipo de trabalho mas do facto de ser uma pessoa que o executa. Uma pessoa consciente de si mesma e do que a rodeia. Uma pessoa livre, capaz de decidir por si e responsável pela sua vida e pelo presente e futuro da sociedade.

Assim notamos que o trabalho congrega em si duas dimensões essenciais do Homem, a dimensão pessoal e a social, o que nos permite dizer que o “trabalho humano é uma chave, provavelmente a chave essencial de toda a questão social, se nós procurarmos vê-la verdadeiramente sob o ponto de vista do bem do Homem”. (LE, 3)

Como cristãos temos que anunciar que o centro do trabalho é sempre o Homem. Que “o trabalho é para o Homem e não o Homem para o trabalho” (LE, 6).
Esta verdade, que constitui num certo sentido a medula fundamental e perene da doutrina cristã sobre o trabalho humano, teve e continua a ter um significado primordiais para a formulação dos importantes problemas sociais ao longo de épocas inteiras. (LE, 6)

Para nós cristãos, o trabalho nunca pode ser fonte de exploração ou violência, atrofio da criatividade ou da liberdade, submissão de uns face ao poder e capital de outros, desigualdades salariais e sociais cada vez gritantes e taxas de desemprego e precariedade cada vez mais elevadas. Estas realidades nós sentimo-las hoje…

Testemunhos

Natural de Castelo Branco, Soraia mudou-se para Leiria em busca de melhores oportunidades. Habilitada para leccionar a disciplina de Educação Visual e Tecnológica, candidatou-se ao Ensino Básico para aumentar as possibilidades de colocação. Depois de quatro anos consecutivos a leccionar, 2006 revelou-se um ano de revezes profissionais – passou por quatro escolas, sempre com contratos de substituição. Sem perspectivas de emprego certo, todos os projectos pessoais ficaram adiados. (…)
A professora casou, há 2 anos, mas não pensa em constituir família, devido às dificuldades económicas. O sonho de ter um filho fica adiado até melhores dias.

Depois de constantes promessas de que a situação precária dos profissionais de saúde seria resolvido, Nuno está há 3 anos a trabalhar com contratos a prazo, por três meses, renováveis automaticamente. Antes, assinou outro contrato temporário, por oito meses, mas no IPO do Porto. E sabe de outros colegas na mesma situação há cerca de oito anos, o que o faz perspectivar um futuro, a médio prazo, de precariedade laboral. “ Não tenho independência para pedir um empréstimo.”
(excertos retirados da revista FOCUS, n.º 390)

“Nunca pensei em voltar a emigrar, visto que já tinha tido uma pequena experiência na Suíça, no início do meu casamento. Como já tinha uma noção do sacrifício de estar longe de tudo e de todos, jamais queria repetir tal experiência. Só que a vida muda, e quando temos os filhos como nossa prioridade abdicamos de outras coisas. O meu marido ficou desempregado e sem grandes perspectivas, eu ganhava pouco mais do que o salário mínimo e não podíamos aguentar por muito tempo essa situação. (…) O meu marido foi primeiro e ao fim de nove meses, eu e a minha filha partimos para o Luxemburgo.” (Sandra, 28 anos)
(retirado do JO – Juventude Operária, n.º 608)

Os 1300 funcionários da multinacional alemã de calçado Rohde manifestam-se amanhã em frente à Câmara de Santa Maria da Feira (…) Os trabalhadores da Rohde estão apreensivos. “Não tenho moral para trabalhar, não tenho rendimento. Não tenho pão para os meus filhos”, desabafa um dos operários no plenário que ontem teve lugar no exterior do recinto da unidade fabril. (retirado Público, 15/03/2007)

Sou trabalhadora-estudante num hipermercado em part-time. Neste emprego ao chegar atrasada 5 min são-me descontados 30 min no salário. Apesar de algumas vezes fazer horas extraordinárias não me é acrescentado nada mais no salário. (Andreia, 19 anos)

Trabalhar a recibos verdes é muito incerto e levanta-nos grandes problemas. Nunca sabemos quando vamos receber. Somos obrigados a passar recibos verdes e na maioria das vezes só recebemos muito mais tarde. E, corremos o risco de nem receber! Isso já me aconteceu. Mas independentemente disto, tens de pagar IRS, segurança social e Iva quando o volume de negócios é superior a 10.000 euros. (Sónia, 29 anos)

Trabalhei num supermercado durante 5 anos, terminei o contrato e mandaram-me embora. Fiquei a receber o subsídio de desemprego durante 1 ano e depois recorri à ADDECO. No entanto, não consegui emprego durante 2 anos. Vim para Portugal e inscrevi-me em várias empresas, mas nenhuma me chamou. Recorri, então, às empresas de trabalho temporário. (…)
Desde Junho do ano passado que estou inscrita em 3 empresas de trabalho temporário. (…)
chamaram-me e fiquei a trabalhar numa empresa durante 3 meses. Depois trabalhem Alcobaça durante 3 semanas e depois fui para uma empresa de plásticos trabalhar uma semana. De alguns meses para cá, chamam-me apenas alguns dias por mês. Nunca sei quantos dias vou trabalhar.
(Cristina, 27 anos)

Outras situações: trabalho sem qualquer tipo de direitos; desigualdades salariais entre homens e mulheres; despedimento de grávidas; desemprego…

Neste momento, o trabalhador é um boneco de produção nas mãos dos grandes grupos económicos, de grandes interesses e de uma procura selvagem e feroz do lucro. De um lucro que não é distribuído por todos que contribuíram para ele mas que é acumulado pelos níveis mais elevados da hierarquia das empresas. O mercado de trabalho não tem o Homem como centro mas o dinheiro e o Homem é encarado como instrumento, como uma peça, uma coisa que faz ainda mais dinheiro.
A realidade é inegável: ao mesmo tempo que existem pessoas a serem vítimas de exploração e de pobreza cada vez de forma mais dramática, existem outros grupos que aumentam cada dia os seus ganhos e lucros. São conhecidos os lucros fabulosos e escandalosos da banca perante o endividamento, salários baixos, desemprego,… dos trabalhadores mais humildes. Como entender esta realidade numa sociedade democrática? Que desenvolvimento e progresso é este? Que sociedade estamos a construir?

“Dada a interdependência cada vez mais estreita e a sua progressiva difusão por todo o universo, o bem comum, ou seja, o conjunto de condições da vida social que permitem, quer aos grupos, quer a cada um dos seus membros, atingir a sua própria perfeição de um modo mais total e mais fácil, toma hoje uma extensão mais universal e implica, por isso, direitos e deveres que dizem respeito a todo o género humano. Todo o grupo deve ter em conta as necessidades e legítimas aspirações dos outros grupos e, mais ainda, o bem comum de toda a família humana.
Cresce ao mesmo tempo a consciência da eminente dignidade da pessoa humana, superior a todas as coisas e cujos direitos e deveres são universais e invioláveis. É, pois, necessário tornar acessível ao homem tudo aquilo de que este tem necessidade para levar uma vida verdadeiramente humana, como a alimentação, o vestuário, a habitação, o direito de escolher livremente o seu estado de vida e de fundar uma família, o direito à educação, ao trabalho, à reputação, ao respeito, a uma informação adequada, a actuar segundo a recta norma da sua consciência, à protecção da vida privada e a uma justa liberdade, inclusivamente em matéria religiosa.”
(GS, 26)

Perante esta realidade, por onde pode deve passar a nossa acção enquanto cristãos?
“A Igreja, porém, considera sua tarefa fazer com que sejam sempre tidos presentes a dignidade e os direitos dos homens do trabalho, estigmatizar as situações em que são violados e contribuir para orientar as aludidas mutações, para que se torne realidade um progresso autêntico do homem e da sociedade.” (LE, 1)

Promover a solidariedade entre os trabalhadores para lutar contra a degradação social do homem, a exploração e a crescente miséria e fome, sendo assim verdadeiramente a Igreja dos pobres, tendo nesta matéria um papel importante as organizações dos trabalhadores;

Perceber e ajudar outros a perceberem a empresa como comunidade de pessoas, em que colaboram e participam todos os seus elementos;

Anunciar a distribuição dos lucros das empresas como forma justa e verdadeira de partilha e de sentido de pertença a uma empresa;

Incentivar os trabalhadores à formação pessoal e académica para estarem mais preparados para fazer face às exigências do mercado de trabalho;

Denunciar as injustiças e desigualdades salariais e sociais gritantes existentes na nossa sociedade (o salário mínimo português é 403 euros) que excluem cada vez mais pessoas de terem acesso a bens essenciais como a habitação;

Denunciar a precariedade e temporalidade do trabalho pois estas realidades tornam toda a vida precária e temporária, nomeadamente a vida familiar e associativa;

Denunciar o desemprego como verdadeira calamidade social e humana pois ele representa a exclusão da pessoa humana da participação na Obra da Criação.

Leitura de um excerto do livro “O Profeta” de Khalil Gibran, sobre o trabalho.

Maria das Neves

15 de maio de 2007

TROCA, TRABALHO e DOM





TROCA, TRABALHO E DOM


Isabel Pinto Correia
Maria das Neves Jesus
Manuel Carvalho da Silva

Moderador: Guilherme d’Oliveira Martins

10 de maio de 2007

PODER E PRAZER, FORÇA E FRAQUEZA





Algumas fotos da 1ª Conferência de Maio, 2007, que contou com a intervenção de Eduardo Lourenço, os comentários de Guilherme d'Oliveira Martins e a moderação de José Leitão.

9 de maio de 2007

A Fé dos Homens

Na 2ª feira, 7 de Maio.2007, na RTP 2, no programa A Fé dos Homens, foi emitida uma entrevista sobre o CRC, a sua história, as suas actividades e em particular sobre as próximas Conferências de Maio, com a participação do José Leitão e António José Paulino.
Pode ser vista aqui.

2 de maio de 2007

Conferências de Maio, 2007

O QUE NOS FAZ CORRER?

PODER E PRAZER, FORÇA E FRAQUEZA
8 de Maio, 3ª feira, 18:30 H

Eduardo Lourenço

Moderador: José Leitão

TROCA, TRABALHO E DOM
15 de Maio, 3ª feira, 18:30 H

Isabel Pinto Correia
Maria das Neves Jesus
Manuel Carvalho da Silva


Moderador: Guilherme d’Oliveira Martins

O CULTO DO CORPO: ENCANTO DESENCANTO
22 de Maio, 3ª feira, 18:30H
Eduardo Sá
Laurinda Alves
Helena Marujo
Luís Miguel Neto

Moderador: Manuel Vilas Boas

DE QUE ESPÍRITO SOMOS ?
29 de Maio, 3ª feira, 18:30 H

Anselmo Borges
Francisco Sarsfield Cabral
José Tolentino Mendonça

Moderador: Pe. Peter Stilwell


Local:
Centro de Estudos da Ordem do Carmo
Rua de Santa Isabel, 128-130. Lisboa
(Metro: Rato)

19 de dezembro de 2006

Jesus muçulmano


Texto publicado no jornal Público na 3ª feira, 19 de Dezembro de 2006

Jesus muçulmano

Faranaz Keshavjee
Membro da Comunidade Ismailita


Jesus surge no Alcorão e nos Evangelhos (ditos) Muçulmanos como o Profeta do Amor; o Guia das virtudes cardinais: a Paciência, a Humildade, a Renúncia ao materialismo, o Silêncio. Jesus também aparece como o "obreiro dos milagres"; o "viajante"; o "arrependido"; o "Redentor". Jesus é para os muçulmanos o Selo dos Santos. Jesus, é o grande Sufi. Jesus também é muçulmano!

Conta-se que no tempo da Dinastia Buyida que governou a partir de Bagdad, aí entre os séculos X e XI, surgia um tipo de humanismo que Joel Kraemer chamou de Renascimento do Islão, anterior ao Renascimento europeu. Num contexto que merece consideração até para entender os fenómenos de diversidade étnica e religiosa que hoje afligem o mundo ocidental relativamente à guerra civil no Iraque, intelectuais e poetas, teólogos e juristas desse tempo conversavam sobre vários assuntos de interesse e relevância cosmopolita.

Nesse período da história Al-Tawhidi e Abu Sulaiman discutiam sobre pertenças religiosas e este último questionava Al-Tawhidi sobre a sua escolha pessoal. Perguntava Abu Sulaiman, se todas as religiões são iguais, isto é, se conduzem os seres humanos ao conhecimento do divino, da inspiração divina para dar um sentido à vida, e se Deus é só um, mas os caminhos para O conhecer podem divergir, por que razão era ele um muçulmano e não um crente de outra religião qualquer? Al-Tawhidi respondera: "Sou muçulmano porque experimentei este caminho, e sinto-me confortável assim.

É como se imaginássemos que estou a caminhar pelo deserto num dia em que o sol se encontra a brilhar com intensidade e calor mas onde, subitamente, surgem nuvens pesadas e cinzentas no céu, e caminhando percebo que pode estar a chegar uma tempestade; um pouco mais adiante, procurando refúgio e abrigo, vejo uma tenda que me parece segura e confortável e entro nela. Lá fora a chuva chega e é cada vez mais intensa e forte e eu sinto-me abrigado e protegido nesse lugar. De repente, noto que num canto da tenda está uma brecha, por onde entra água, e acaba por chover também um pouco dentro de minha casa. Olho para fora, espreito e avisto uma outra tenda, lá adiante, que me parece também um bom abrigo, mas observando com maior atenção, verifico que também nessa tenda existe uma outra fenda, não exactamente no mesmo lugar desta, mas há uma brecha noutro lugar, por onde a água também entra.
E penso assim para mim: ao invés de sair daqui, de onde estou, e atravessar este terreno lamacento, e molhar-me até chegar à outra tenda, onde também existe um buraco... deixa-me antes fazer desta onde estou a minha casa. E é assim que sou muçulmano!"

Inspirada por este sentido humanista e respondendo ao desafio lançado pelo Centro de Reflexão Cristã, fui estudar e conhecer Jesus - o Profeta do Islão. A investigação e reflexão sobre o papel que este Profeta maior teve para os muçulmanos e na história das civilizações islâmicas deixaram em mim uma profunda marca e convicção do quanto estamos todos, o mundo cristão e o islâmico, próximos uns dos outros.

Já tinha ouvido o Aga Khan, o Imã dos Ismailitas, dizer numa entrevista recente que não se pode pensar em choque de religiões quando existe tanto em comum entre as religiões de Abraão. De resto, também o sr. cardeal-patriarca Dom José Policarpo recentemente o disse, que há muito mais convergências do que divergências nestas tradições religiosas. Agora, reflectindo sobre o que fiquei a conhecer, compreendo melhor o que isto quer dizer.

Jesus é para os muçulmanos não só um Profeta mas também um Guia Espiritual que se demarcou de muitos outros tanto na forma como o Alcorão o descreve, enquanto um ayat (sinal) de Deus, mas também como um exemplo a seguir, na forma como os Evangelhos Muçulmanos proporcionaram o conhecimento sobre Jesus e moldaram a espiritualidade nas várias civilizações islâmicas. Jesus surge no Alcorão e nos Evangelhos (ditos) Muçulmanos como o Profeta do Amor; o Guia das virtudes cardinais: a Paciência, a Humildade, a Renúncia ao materialismo, o Silêncio. Jesus também aparece como o "obreiro dos milagres"; o "viajante"; o "arrependido"; o "Redentor". Jesus é para os muçulmanos o Selo dos Santos. Jesus, é o grande Sufi. Jesus também é muçulmano!

Se até hoje os muçulmanos, pelo menos os portugueses, assim como outros europeus e norte-americanos, vêm celebrando o Natal por questões culturais e sociais, porque coabitam espaços geográficos predominantemente cristãos e católicos, e às vezes até com um certo sentimento de heresia face às suas tradições religiosas originais, posso dizer com convicção, e com conhecimento, que devemos celebrar o Natal e o nascimento de Jesus numa perspectiva religiosa e espiritual de grande importância no mundo islâmico.

Numa postura semelhante à dos Buyidas, e já agora também à dos Fatimidas, seus contemporâneos, todos Shiitas, que são meus antecessores, e precursores de uma lógica de governação e de convivência humanista e pluralista, posicionei-me com alguma humildade perante o saber e o conhecimento sobre o Outro, e deixei-me "converter" à nobreza de uma grande espiritualidade que teve, e que tem ainda hoje, uma grande influência na forma como os muçulmanos aprenderam sobre a ética cosmopolita e os caminhos para conhecer Deus, que afinal, no entendimento do também Sufi Farid ud-Din Attar, somos nós todos juntos, o tal Simurgh da Conferência dos Pássaros, com as nossas diferenças, em plena harmonia e unidade.

Neste meu primeiro de muitos natais a celebrar, Inshallah, fica apenas um desejo sentido: que da mesma forma como quis conhecer o Outro, que afinal faz parte de mim, num desejo puro da minha curiosidade intelectual, humana e afectiva, também espero que todos esses "outros" tenham a mesma vontade e o mesmo desejo genuíno de conhecer também eles a "minha casa"; gostaria que re-conhecessem nos outros crentes, laicos ou religiosos, não apenas as diferenças, mas as mesmas ansiedades, as mesmas dúvidas, e a mesma esperança, que afinal nos tornam iguais, isto é, simplesmente humanos e vulneráveis perante as complexidades da vida.

4 de dezembro de 2006

Jesus nos Evangelhos apócrifos

Próximo Colóquio:

19 de Dezembro 2006, 3ª feira, às 18:30 h
no Centro Nacional de Cultura

Intervenções:
Pe. João Lourenço
Pe. Joaquim Carreira das Neves
José Augusto Ramos

CRISTIANISMO E ISLAMISMO - NOVOS DINAMISMOS

Comentário de José Leitão sobre o último colóquio do CRC, publicado no seu blog:

(...)
Ficou claro para todos o lugar de relevo que o Alcorão atribui a Jesus, filho Maria, Profeta, Verbo de Deus e Messias, concebido virginalmente por Maria, mas que não é Deus, não foi crucificado, nem morto, mas Deus elevou-o para Ele.
O Alcorão e as tradições islâmicas têm afinidades com as narrativas sobre Jesus dos Evangelhos canónicos de Mateus, Marcos e Lucas, manifestando também ecos de Evangelhos apócrifos.
Particularmente interessante, e diria mesmo perturbante, foi a intervenção e o testemunho da mais notável teóloga muçulmana portuguesa, da corrente xiita ismaili, Faranaz Keshavjee do seu encontro com o Jesus muçulmano. (...)

28 de novembro de 2006

Jesus profeta do Islão

Realizou-se a 28 de Novembro 2006 o 2º Colóquio desta série, com as intervenções de:

António Dias Farinha
Faranaz Keshavjee
Artur Cunha Oliveira


Guilherme d'Oliveira Martins (moderador)

29 de outubro de 2006

JESUS, JUDEU DA PALESTINA

Relato sobre o último colóquio do CRC, por José Leitão:

O CRC (Centro de Reflexão Cristã) iniciou um ciclo de «Diálogos sobre Jesus», extremamente interessante que nos colocam perante diversas compreensões da sua identidade, o que nos suscita a pergunta quem é para mim este homem.
Jesus nasceu judeu na Palestina, é considerado como profeta pelo Islão, são várias as narrativas gnósticas que dele nos dão retratos inesperados, é confessado como o Cristo por milhões de cristãos.
Os debates começaram pelo princípio, falando de Jesus judeu da Palestina. Jesus nasceu judeu, foi circuncidado, apresentado no Templo, frequentou e ensinou em sinagogas.
Estes debates começaram por interrogar Jesus como judeu da Palestina, com as intervenções de Alain Hayat e de José Tolentino de Mendonça.
Alain Hayat é um judeu francês nascido em Tunes, que trabalhou durante muitos anos em Portugal e que é Reitor da Sinagoga de Lisboa, e autor do livro “Éclats de Tora” e empenhado no diálogo inter-religioso no quadro do Forum Abraâmico. Fez uma abordagem muito serena e objectiva.
Considerou que seria mais correcto dizer que Jesus nasceu no Reino da Judeia, que era um protectorado de Roma, no qual exercia poder um governador romano e um rei local, e não na Palestina, designação mais associada, em seu entender ao mandato britânico sobre a região. Sublinhou que as fontes que dispomos sobre Jesus são textos gerados pela fé dos homens e não trabalhos de historiadores. Apoiando-se no historiador judeu do I século Flavius Joseph referiu que quando surgiu Jesus, a religião judaica estava dividida em várias tendências, numa situação de confronto e de desordem total.
Caracterizou várias tendências ou seitas: os saduceus, aristocracia conservadora muito ligada ao Templo de Jerusalém abertos a todo o tipo de compromissos com os romanos; os fariseus mais exigentes com um fundo nacionalista, que desenvolveram uma tradição oral, grupos místicos como os de Qumran, que desenvolvem conceitos como o de Mestre da Justiça, que pode ter tido eco em Jesus. Havia ainda os “brigantes”, os zelotas, que hoje chamaríamos fundamentalistas e que recorriam a atentados contra os romanos.
Não havia apenas uma grande divisão, mas também uma pergunta enorme sobre o futuro. Era um momento propício para uma mensagem forte. Jesus aparece ligado a símbolos fortes. Jesus é filho de José, filho preferido do patriarca Jacob, de cujo ramo sairá o Messias. Há um conjunto de coincidências e de pormenores relativos a Jesus que o ligam à tradição judaica. Jesus era um judeu que estava à procura de promover a santidade e de a generalizar. Naquela altura as discussões entre judeus, eram constantes e não provocavam rupturas. Jesus foi considerado durante toda a vida como judeu, com uma visão diferente. Só depois com os apóstolos e o desenvolvimento do cristianismo como religião se deu a ruptura.
José Tolentino de Mendonça, padre católico, doutorado em Ciências Bíblicas, poeta e escritor, reconheceu que faltam fontes para conhecer o judaísmo no tempo de Jesus. Jesus é-nos dado sempre através dos testemunhos e de uma comunidade que tem a referência da sua fé É necessária a mediação da linguagem e da comunidade e precisamos sempre de uma hermenêutica.
Estamos actualmente na terceira vaga de estudos acerca de Jesus. As duas anteriores descreviam Jesus com critérios de separação relativamente ao judaísmo. Hoje vinga o critério da plausibilidade.
É mais credível inseri-lo no contexto de um judaísmo que era uma realidade fragmentada, como o comprova o facto de se falar em tendências, o que vai permitir que um pregador da Galileia pudesse fazer o caminho que Jesus fez. Os próprios Evangelhos vão costurando os filamentos que explicam o movimento de Jesus. De referir, por exemplo, a sua ligação a João Baptista que bebe do entusiasmo reformador que existe no seu tempo.
Hoje muitos autores judeus escrevem sobre Jesus, sobre a sua dimensão de sábio à maneira dos rabinos com os seus grupos de discípulos, debatendo a partir de citações do Antigo Testamento. O método parabólico não é desconhecido da tradição judaica. Jesus explora a margem desse judaísmo plural de onde vai emergir o cristianismo. Outra dimensão de Jesus, é a profética e apocalíptica. Não é por acaso que Isaías é citado nos Evangelhos. O profetismo judaico é uma chave essencial para compreender.
Jesus faz um percurso solitário. A partir do capítulo 3 do Evangelho de Lucas não pode entrar nas cidades. Sofre a perseguição que sofriam os que reclamavam uma mudança do sistema religioso e social.
Os milagres, as curas, as refeições são essenciais para compreender o personagem Jesus, mostrando, por exemplo, na multiplicação dos pães a sua visão da sociedade.
O critério da plausibilidade é essencial para compreender Jesus, mas há um limite. Fica por explicar como morreu, como foi excluído dentro daquele sistema religioso e social. Jesus tem de ser explicado pela continuidade e pela ruptura. Jesus foi um judeu marginal, um camponês do Mediterrâneo, aberto ao helenismo, segundo outros autores. A pertença judaica é uma dimensão de Jesus, não nos diz tudo sobre ele.
Ao deixar aqui este apontamento quero sublinhar que a importância das questões abordadas nesta sessão justificariam a organização entre cristãos e judeus de um Seminário sobre este tema.
Era muito importante divulgar entre nós os autores desta terceira vaga de estudos sobre Jesus, incluindo os autores judeus. O suplemento “Mil Folhas”, de 8 de Julho de 2006 do jornal “Público” divulgou, por exemplo, um desses autores, Geza Vermes, mas infelizmente as suas obras ainda não estão publicadas em português.
Se me permitem uma sugestão não percam os próximos debates sobre Jesus, o primeiro dos quais será sobre Jesus como profeta do Islão.
Olhar em volta é a única forma de viver livre e de pensar livremente.

José Leitão

18 de outubro de 2006

Diálogos sobre Jesus

CICLO DE COLÓQUIOS 2006/2007

Terças-feiras às 18h30m

1º Jesus judeu da Palestina
24 de Outubro 2006

Alain Hayat
Pe. José Tolentino de Mendonça

2º Jesus profeta do Islão
28 de Novembro 2006


António Dias Farinha
Faranaz Keshavjee

Artur Cunha Oliveira

3º Jesus nos Evangelhos apócrifos
19 de Dezembro 2006


Pe. João Lourenço
Pe. Joaquim Carreira das Neves
José Augusto Ramos

4º Jesus Cristo História e Fé
23 de Janeiro 2007

Maria Julieta, rscm
D. Manuel Clemente

Local: Auditório do Centro Nacional de Cultura
Largo do Picadeiro, nº 10-1º. Lisboa.
(metro Baixa-Chiado)
ENTRADA LIVRE

7 de agosto de 2006

Reflexão Cristã nº 25-26 de 2005



Saiu um novo número da Reflexão Cristã, que inicia uma nova série, com novo grafismo e novo formato.

Este número dá realce à celebração do 30º aniversário do CRC, com a publicação do texto do José Leitão "CRC - Trinta anos de Presença Cristã" e publica um conjunto de intervenções que foram proferidas nas Conferências de Maio de 2005 - BOA NOVA NA CIDADE MODERNA. Textos de D. Carlos Azevedo, Jorge Wemans, Graça Franco, Catarina Pereira Miguel, Pe. Hermínio Rico, sj, Manuel Vilas Boas, Acácio Catarino, Pe. António Janela, Maria José Nogueira Pinto, Alfredo Bruto da Costa e Pe. José Manuel Pereira de Almeida.

Publica-se também o resumo da intervenção do Presidente do CRC na Catedral de Notre-Dame de Paris durante o Congresso da Nova Evangelização.

6 de julho de 2006

DOIS COMPROMISSOS

DOIS COMPROMISSOS
D. ANTÓNIO FERREIRA GOMES
D. SEBASTIÃO SOARES DE RESENDE

Colóquio
Dia 11de Julho de 2006
3ª feira às 18h30m


D. Carlos Azevedo
Caetano Pacheco de Andrade
Moderador: Guilherme d’Oliveira Martins


Local: Auditório do Centro Nacional de Cultura
Largo do Picadeiro, nº 10-1º. Lisboa.
(metro Baixa-Chiado)

26 de maio de 2006

A LIBERDADE RELIGIOSA NUM MUNDO PLURAL


· José Vera Jardim










· D. Manuel Clemente

24 de Maio, 4ª feira,18:30 H










A LIBERDADE RELIGIOSA NUM MUNDO PLURAL

· Pastora Idalina Sitanela

Moderadora: Maria Cristina Clímaco

18 de maio de 2006


17 de Maio, 4ª feira, 18:30H
IMAGENS DO RELIGIOSO NA COMUNICAÇÃO SOCIAL

Abdool Karim Vakil
Esther Mucznik
Pe. José Manuel Pereira de Almeida

Moderador: Fr. Bento Domingues

15 de maio de 2006

IMAGEM DO SAGRADO, IMAGENS DO MUNDO

José Leitão publicou o seguinte post sobre as Conferências de Maio no seu blog
IMAGEM DO SAGRADO, IMAGENS DO MUNDO

(...)
Na primeira conferência sobre o tema "A representação do sagrado no mundo da imagem" a escultora Clara Menéres referiu-se aos problemas e às querelas que suscitou a representação do sagrado no confronto entre o judaísmo, o islamismo e o cristianismo, bem como, em diversos momentos no interior do cristianismo, manifestando-se criticamente contra a forma como a figura humana é hoje muitas vezes degradada designadamente em campanhas publicitárias, muito longe da seriedade e o rigor que, por exemplo, se punha na produção de ícones no quadro da espiritualidade ortodoxa.

João Bénard da Costa analisou também esta questão referindo-se a outros períodos de questionamento da representação do sagrado no interior do cristianismo, por exemplo, por parte da reforma protestante. Ambos sublinharam que a questão da representação do sagrado se tornou mais viável no interior do cristianismo, em virtude de como diz S. João «o Verbo fez-se homem e habitou entre nós».

O facto de Deus se ter feito homem em Jesus, do qual nenhum Evangelho canónico ou apócrifo descreve os traços físicos, tornou legítima a sua representação, a qual teve uma influência decisiva na própria emergência e desenvolvimento da pintura e esculturas europeias.

O padre Peter Stilwell, como teólogo, sublinhou que a representação do sagrado reveste hoje outras formas e nos chega pelo cinema, por vezes, onde menos se espera e pela televisão. Referiu a propósito a morte de João Paulo II, a procissão da Imagem da Virgem de Fátima pelas ruas de Lisboa e os funerais da Madre Teresa de Calcutá ou até da Princesa Diana dada a imagem que tinha criado de dedicação a causas humanitárias. Ficou a convicção de que sem a opção do cristianismo pela representação do sagrado teria sido outra a arte na Europa, tendo a esse propósito, João Bénard da Costa evocado os trabalhos de Cristina Campo, para quem sem o cristianismo não teríamos tido a arte moderna.

Na segunda conferência o debate centrou-se sobre "Património da fé e na liberdade criadora", Faranaz Keshavjee deu como exemplo de liberdade criadora a forma como na comunidade ismaili é encarado o património cultural, referindo-se com detalhe ao Centro Ismaili de Lisboa e ao culto doméstico dos ismailis do Tajiquistão. Sublinhou como procuram conjugar a tradição, com o enraizamento local, pela utilização de materiais e formas que estabelecem pontes com o património local.

José Luís de Matos abordou a evolução das concepções e representações do sagrado desde as civilizações agrícolas, às civilizações mercantis, da oralidade ao audiovisual, passando pela escrita. Fez o que se poderemos designar como um itinerário de Deus, para evocar os trabalhos de Régis Debray sobre estas matérias, que citou.

Nuno Teotónio Pereira evocou como foi difícil o emergir do Movimento de Renovação da Arte Religiosa, há cerca de cinquenta anos, num contexto marcado pelas limitações que o salazarismo colocava à expressão artística, que não tivesse uma inspiração nacionalista.
Contou como arquitectos, pintores e músicos procuraram uma arte cristã, que estivesse de acordo com as realidades sociais, a sensibilidade e a espiritualidade modernas e não procurasse repetir de forma artificial o que tinha correspondido a outros tempos.
Foram referidos, como exemplos, a Igreja de Santo António de Moscavide, concebida por António Freitas Leal e João Almeida e a Igreja do Sagrado Coração de Jesus da autoria de Nuno Teotónio Pereira.
Em aberto ficou uma afirmação de José Luís de Matos de que o audiovisual e a Internet colocam desafios de grande novidade e radicalidade à representação e à ligação com o sagrado, que a Igreja tem dificuldade em pensar.

Este é precisamente o tema da próxima quarta-feira "Imagens do religioso na comunicação social", com a participação de Abddoal Karim Vakil, da comunidade islâmica, Ester Mucznik, da comunidade israelita de Lisboa, e do Padre José Manuel Pereira de Almeida.

11 de maio de 2006








PATRIMÓNIO DA FÉ E LIBERDADE CRIADORA
·
Faranaz Keshavjee
· José Luís de Matos
· Nuno Teotónio Pereira


Moderador: José Leitão

4 de maio de 2006




A REPRESENTAÇÃO DO SAGRADO NO MUNDO DA IMAGEM
· Clara Menéres
· João Bénard da Costa
· Pe. Peter Stilwell
Moderador: Guilherme d’Oliveira Martins

24 de abril de 2006

Conferências de Maio, 2006

IMAGEM DO SAGRADO, IMAGENS DO MUNDO

3 de Maio, 4ª feira, 18:30 H
A REPRESENTAÇÃO DO SAGRADO NO MUNDO DA IMAGEM
· Clara Menéres
· João Bénard da Costa
· Pe. Peter Stilwell
Moderador: Guilherme d’Oliveira Martins

10 de Maio, 4ª feira,18:30 H
PATRIMÓNIO DA FÉ E LIBERDADE CRIADORA
· Faranaz Keshavjee
· José Luís de Matos
· Nuno Teotónio Pereira
Moderador: José Leitão

17 de Maio, 4ª feira, 18:30H
IMAGENS DO RELIGIOSO NA COMUNICAÇÃO SOCIAL
· Abdool Karim Vakil
· Esther Mucznik
· Pe. José Manuel Pereira de Almeida
Moderador: Fr. Bento Domingues

24 de Maio, 4ª feira,18:30 H
A LIBERDADE RELIGIOSA NUM MUNDO PLURAL
· Pastora Idalina Sitanela
· José Vera Jardim
· D. Manuel Clemente
Moderador: Maria Cristina Clímaco

Local: Centro de Estudos da Ordem do Carmo
Rua de Santa Isabel, 128-130. Lisboa (Metro: Rato)

9 de abril de 2006

Reflexão Cristã nº 23-24 de 2004



Este número realça o ciclo de Colóquios organizados pelo CRC a partir da interpelação dos bispos portugueses – “SETE PECADOS SOCIAIS – SETE SINAIS DE ESPERANÇA”, com textos de Manuela Silva, Lídia Jorge, Helena Cidade Moura e do Pe. Agostinho Jardim.
Apresenta-se também uma súmula das intervenções das Conferências de Maio de 2004 – CIDADE DE DEUS – CIDADE DAS PESSOAS.

Um texto do fr. Luís de França, op sobre Yves-Marie Congar – um homem de fronteira, a transcrição da entrada sobre o CRC no 3º volume da “História Religiosa de Portugal”, da autoria de Paulo Oliveira Fontes, edição do Círculo de Leitores e uma selecção de textos apresentada por D. Manuel Clemente – “Ecclesia in Europa” numa conferência na sede do CRC, completam este número, com 88 páginas.

2 de março de 2006

CICLO DE COLÓQUIOS/Gaudium et Spes

Gaudium et Spes
Revisitação 40 anos depois

A Comunidade Política e a Salvaguarda da Paz

7 Março 2006, 3ª feira, às 18:30

Alberto Ramalheira
Armanda Saint-Maurice
José Torres Campos

Local: Auditório do Centro Nacional de Cultura
Largo do Picadeiro, nº 10-1º. Lisboa.
(metro Baixa-Chiado)

1 de fevereiro de 2006

Gaudium et Spes




A 31 de Janeiro o CRC fez o lançamento da edição da Constituição Pastoral sobre a Igreja Contemporânea - Gaudium et Spes.


Esta edição conta com um Prefácio de D. Carlos Azevedo (Bispo Auxiliar de Lisboa) e a capa foi feita pela Ana Oliveira Martins.






O colóquio, o 6º da série que o CRC realizou ao longo dos últimos meses, na revisitação da Gaudium et Spes, desta vez foi sobre a Vida Económico Social, foi realizado no auditório do Centro Nacional de Cultura e contou com as intervenções de Jorge Wemans (director da Dois), Manuela Silva (Presidente da Comissão Nacional de Justiça e Paz) e do D. Carlos Azevedo (bispo auxiliar de Lisboa) e foi moderado pelo Presidente do CRC, Guilherme d'Oliveira Martins.

27 de janeiro de 2006

Deus Caritas Est - Bento XVI

A propósito da recente publicação da 1ª encíclica do Papa Bento XVI, num artigo do Público, de 26.Jan.06, veio publicado o seguinte comentário do Presidente do CRC, Guilherme d'Oliveira Martins:

UMA ENCÍCLICA PARA O NOSSO TEMPO

“Deus Caritas est” (Deus é Amor) constitui uma agradável surpresa. Estamos perante uma encíclica que trata de um tema central no mundo contemporâneo – o lugar do outro e a relação entre as pessoas. E é muito interessante que Bento XVI tenha escolhido um tema transversal e susceptível de mobilizar vontades e energias. Assim, com um aparato teológico e filosófico bastante rico, fazendo jus a um percurso intelectual fecundo, o Papa põe no centro da reflexão da Igreja Católica o tema crucial da mensagem cristã – susceptível de lançar pontes de encontro e de diálogo, designadamente entre as várias religiões e todas as pessoas de boa vontade. “O amor é possível, e nós somos capazes de o praticar porque criados à imagem de Deus. Viver o amor é (…) fazer entrar a luz de Deus no mundo…” E que método preconiza o Sumo Pontífice nesta encíclica? O método simples e ancestral do exemplo, dos sinais concretos sobre “o amor com que Deus nos cumula e que deve ser comunicado aos outros por nós”. Num tempo em que tanto se fala de comunicação, torna-se indispensável ir os fundamentos da relação entre as pessoas e tirar consequências em termos de responsabilidade para com os outros. Trata-se de assumir e de preparar o “face a face”, de que fala S. Paulo, e que transforma a terceira virtude teologal, a caridade, em primeira, de que a fé e a esperança são subsidiárias. Eros, philia e agape são formas diferentes da relação humana. E Eros tem de ser compreendido, como equilíbrio na relação com o corpo, em lugar de esquecido o suprimido (“o eros quer-nos elevar ‘em extase’ para o Divino, conduzir-nos para além de nós próprios, mas por isso mesmo requer um caminho de ascese, renúncias, purificações e saneamentos”). E aqui há pistas muito importantes e inovadoras que lançam sinais de esperança. Bento XVI analisa cada uma das formas da relação humana e fá-lo citando não apenas (como era tradicional nas encíclicas) os livros sagrados e os padres da Igreja, mas também grandes autores, como Virgílio, Descartes, Kant, Nietzsche, a propósito do amor como “cuidado do outro e pelo outro”. Não se trata de cultivar uma abstracção, mas de partir e chegar às situações concretas. “Se na minha vida negligencio completamente a atenção do outro, importando-me apenas com ser ‘piedoso’ e cumprir os meus ‘deveres religiosos’, então definha também a relação com Deus”. No fundo, mais do que a felicidade, o que está em causa é o bem do outro – a partir da concepção de Deus como “fonte originária de todo o ser”. Mas, como construir uma “comunidade de amor”? Como assumir a “caridade como dever da Igreja”? Como ligar caridade e justiça? Eis o que está em causa.

18 de janeiro de 2006

Gaudium et Spes/A Vida Económico-Social

Revisitação 40 anos depois
6º Colóquio
A Vida Económico-Social
31 Janeiro 2006 (3ª f, às 18:30h)

D. Carlos Azevedo
Jorge Wemans
Manuela Silva

Lançamento da edição do CRC da Gaudium et Spes
com Prefácio de D. Carlos Azevedo

Local: Auditório do Centro Nacional de Cultura
Largo do Picadeiro, nº 10-1º. Lisboa.
(metro Baixa-Chiado)
ENTRADA LIVRE
Nota:
O 7º e último colóquio deste ciclo será divulgado em breve.

17 de janeiro de 2006

CRC 30 anos - fotos





5 de dezembro de 2005

CRC 30 Anos

No sábado 3 de Dezembro foi feita a comemoração dos 30 anos do CRC.
Aqui está o texto da intervenção do José Leitão:


CRC – TRINTA ANOS DE PRESENÇA CRISTÃ

O Centro de Reflexão Cristã é, como todos sabeis, uma Associação espontânea e livremente constituída por leigos, religiosos, uma ou outra comunidade e movimentos cristãos, agindo sobre a sua exclusiva responsabilidade.
Completou já trinta anos de existência e faço votos que este encontro mais do que olhar para trás permita identificar linhas de acção para o futuro.
O facto de já ter trinta anos, durante os quais foi pioneiro em muitas áreas de reflexão e investigação, mostra que tinha razão de ser, e acrescento que continua a ter um lugar singular no quadro da Igreja e da sociedade portuguesa. Só permanece o que é e se torna imprescindível.
Não sou historiador e, por isso, não irei abordar estes trinta anos como tal, espero que outros o venham a fazer.
Constato no entanto, que hoje existe a tese de doutoramento da Catarina Silva Nunes, que nasceu um ano após a fundação do CRC, que faz uma aproximação ao que tem sido a intervenção de CRC, e que felizmente está publicada sob o título Compromissos Incontestados. A auto-representação dos intelectuais católicos portugueses, Edições Paulinas, Fevereiro de 2005 e que o Paulo Fontes publicou um texto interessante no 3.º volume da História Religiosa de Portugal, edição Círculo de Leitores.
É enorme a riqueza de vida que por ele tem passado: ideias, esperanças, amizades, redescobertas do sabor libertador da fé, experiências de celebração e oração.
Vale a pena tentar perceber em que medida o CRC tem conseguido concretizar o que foi definido como constituindo a sua identidade e os seus objectivos.
O art.º.2º dos Estatutos define como objectivo do Centro “o estudo da Teologia para crescimento na fé cristã, ao serviço da evangelização e da libertação, inicialmente do Povo Português, actualmente da Pessoa Humana” num registo que, creio, pretende ser mais universalista.
Para a realização dos seus fins, o Centro propõe-se, sobretudo através do trabalho cooperativo dos seus membros
a) promover e efectuar cursos, conferências, palestras, jornadas de estudo, seminários e congressos;
b) investigar e aprofundar teologicamente as experiências que grupos de cristãos estejam a viver no sentido da evangelização libertadora;
c) fomentar a constituição e funcionamento de grupos de trabalho ou de investigação em domínios ligados à sua actividade;
d) promover a edição de publicações.
Previa-se também a criação de um centro de documentação, que foi eliminado, por razões que ignoro, dos objectivos na última reforma estatutária.
Creio que muitos destes objectivos têm estado presentes nas actividades desenvolvidas pelo CRC nestes trinta anos., em que funcionou como incubador de iniciativas, muitas das quais pelo seu próprio sucesso deram origem a novas realidades.
O CRC promoveu, por exemplo, numa nova abordagem da história da Igreja, tendo contado com a colaboração do José Mattoso, sendo muitos dos que participaram nesta iniciativa hoje docentes, nesta área, na Universidade Católica Portuguesa.
O Departamento de Pesquisa Social, uma das muitas iniciativas da Manuela Silva, desenvolveu trabalhos em torno da pobreza e da exclusão social, e também sobre o que então foi designado por “minorias étnicas pobres”, numa época em que eram raros os estudos sobre a imigração. O Departamento viria a estar na origem de um centro de investigação, totalmente autónomo conhecido hoje como CESIS.
O CRC participou também activamente em múltiplas realizações sobre o lugar e a participação das mulheres na vida da Igreja.
Merece uma referência especial a continuidade e a qualidade, que apesar das dificuldades económicas, tem tido a revista Reflexão Cristã, bem como iniciativas marcantes como têm sido as Conferências de Maio.
O CRC foi o espaço onde se realizaram as primeiras iniciativas de diálogo inter-religioso, reunindo cristãos, muçulmanos e judeus, que há que prosseguir de forma mais organizada e sistemática.
Outras iniciativas extremamente interessantes não conseguiram a mesma continuidade. Refiro-me, por exemplo, aos Cadernos de Estudos Africanos, dirigidos pelo Frei Bento Domingues, que foi uma das iniciativas de diálogo com os cristãos de África através da atenção à teologia africana, que está tão ausente da Igreja portuguesa, apesar da África estar aqui tão perto e aqui tão dentro.
Sendo um espaço de reflexão, entendeu, por vezes tomar posições sobre questões concretas, pelo menos há mais de quinze anos, como a situação nas prisões, a lei de segurança interna, os salários em atraso, os efeitos da crise económica, o direito à objecção de consciência.
Mas o que considero ser um dos contributos mais continuados do CRC é o de procurar reflectir sobre os desafios da mutação cultural e a necessidade de pensar a presença dos cristãos e da Igreja numa sociedade democrática, plural e laica.
O facto de não ter desaparecido, como aconteceu com outras iniciativas, demonstra que é necessário institucionalizar minimamente a espontaneidade e a criatividade, recusar o espírito de seita iluminada e abrir-se permanentemente ao diálogo com outros grupos cristãos e não-cristãos, manter liberdade de iniciativa e de expressão, mas ter, ao mesmo tempo, um muito claro sentido de comunhão eclesial.
O CRC tem sido um espaço em que cristãos, a partir do seu empenhamento diverso e plural na construção de uma sociedade mais justa e fraterna, procuram reflectir sobre o sentido a dar a tudo isso à luz da sua fé no Deus de Jesus Cristo.
Há que reconhecer que muitos dos objectivos não têm sido prosseguidos, ou então têm-no sido com descontinuidade.
Temos de reconhecer que temos contribuído para a reflexão cristã, mas não para a investigação teológica. Por outro lado, O CRC não está a promover suficientemente o trabalho cooperativo dos seus membros, fomentando o funcionamento de grupos de trabalho ou de investigação em domínios ligados à sua actividade, tendo no seu historial muitas iniciativas interessantes neste domínio, que deram origem a publicações.
Não sendo o CRC uma comunidade não quero terminar sem deixar duas observações sobre esta questão.
A primeira prende-se com um encontro que tive quando fui Presidente do CRC com o Cardeal D. António Ribeiro. Discutia-se, então, se o CRC se deveria integrar organicamente na Igreja, tendo em conta as possibilidades abertas pelo novo Código de Direito Canónico. D. António Ribeiro entendia que não era necessário, o facto de sermos uma associação civil permitia uma maior liberdade de iniciativa no diálogo com os não-crentes e, sobretudo, acolher os que não sendo praticantes se sentiam atraídos por Jesus Cristo, embora tivessem reservas relativamente à Igreja. Caber-nos-ia avivar a chama que fumega e promover celebrações da fé, que não fossem necessariamente de natureza eucarística.
Tudo isto prende-se com uma ideia que julgo vale a pena considerar. Não sendo o CRC, uma comunidade, interrogo-me, se não seria de promover uma maior ligação com a Capela do Rato, e com a celebração das sete horas de sábado, ou com outras liturgias que se considere deverem ser promovidas.
A segunda e última observação que queria deixar era no sentido do CRC aproveitar a comemoração deste aniversário, não para qualquer reflexão hamletiana sobre a sua existência, mas para se abrir à entrada de novos sócios, que representem melhor a pluralidade crescente da sociedade portuguesa aos quais caberá promover a celebração dos próximos aniversários.

José Leitão

21 de novembro de 2005

CRC - 30 Anos de Memória Viva

Passaram 30 anos.
No sábado, 3 de Dezembro de 2005, vamos comemorar.
Será no Mosteiro de Santa Maria, das Monjas Dominicanas, na Quinta do Frade à Praça da Rainha D. Filipa (Lumiar - Av. Rainha D. Amélia)

CRC 30 ANOS DE MEMÓRIA VIVA

11h00 - Encontro
11h15 - Que história do CRC no Portugal democrático
Guilherme d’Oliveira Martins
José Leitão
12h00 - Eucaristia
13h00 - Almoço
14h30 - Que sentido de ser cristão hoje
Testemunhos
17h30 – Oração comunitária de encerramento

______
Notas:
Almoço - 10 euros.
Agradece-se inscrição por e-mail ou Tel. (3as e 5as, das 15h às 18h)
Haverá possibilidade de regularização de quotas.

Rua Castilho, 61 - 2º Dto. 1250-068 LISBOA. Tel. 21 386 19 52 - Fax 21 386 20 88
E-mail: centroreflexaocrista@oninet.pt - BLOG: www.centroreflexaocrista.blogspot.com

9 de outubro de 2005

Reflexão Cristã nº 23-24 de 2004



Este número realça o ciclo de Colóquios organizados pelo CRC a partir da interpelação dos bispos portugueses – “SETE PECADOS SOCIAIS – SETE SINAIS DE ESPERANÇA”, com textos de Manuela Silva, Lídia Jorge, Helena Cidade Moura e do Pe. Agostinho Jardim.
Apresenta-se também uma súmula das intervenções das Conferências de Maio de 2004 – CIDADE DE DEUS – CIDADE DAS PESSOAS.

Um texto do fr. Luís de França, op sobre Yves-Marie Congar – um homem de fronteira, a transcrição da entrada sobre o CRC no 3º volume da “História Religiosa de Portugal”, da autoria de Paulo Oliveira Fontes, edição do Círculo de Leitores e uma selecção de textos apresentada por D. Manuel Clemente – “Ecclesia in Europa” numa conferência na sede do CRC, completam este número, com 88 páginas.

24 de junho de 2005

5º Colóquio

5º Colóquio
Gaudium et Spes
Revisitação 40 anos depois

A Expansão da Cultura
3ª feira, 28 Junho 2005, às 18:30 h

Emília Nadal
Jorge Barreto Xavier
Pedro Sena-Lino

Local: Auditório do Centro Nacional de Cultura
Largo do Picadeiro, nº 10-1º Lisboa
(Metro Baixa-Chiado)

11 de maio de 2005

Conferências de Maio

Próximas Conferências:

17 de Maio, 3ª feira, 18:30H
ORGANIZAR A COMUNIDADE CRISTÃ NO SÉC. XXI

Acácio Catarino
Pe. António Janela

Moderadora: Maria João Rebordão

24 de Maio, 3ª feira,18:30 H
AVIVAR A CHAMA QUE FUMEGA

Alfredo Bruto da Costa
Pe. José Manuel Pereira de Almeida
Maria José Nogueira Pinto

Moderador: Guilherme d'Oliveira Martins

Local: Centro de Estudos da Ordem do Carmo
R. de Santa Isabel, 130. Lisboa (Metro: Rato)

Conferências de Maio - 2005

Conferências já realizadas:

3 de Maio, 3ª feira, 18:30 H
PRESENÇA DOS CRISTÃOS NA CIDADE
D. Carlos Azevedo
Jorge Wemans
Graça Franco

Moderador: José Leitão

10 de Maio, 3ª feira,18:30 H
ANUNCIAR A FÉ, VIVER EM JESUS CRISTO
Pe. Hermínio Rico, S.J.
Manuel Vilas Boas
Catarina Miguel

Moderador: António José Paulino

12 de abril de 2005

Novos Corpos Sociais

Na Assembleia Geral realizada a 29.Março.2005 foram eleitos os novos Corpos Sociais para o biénio 2005/2006:

MESA DA ASSEMBLEIA GERAL
Presidente: José Torres Campos
Vice-presidente: Adelaide Rocha
Secretários: Ana Paula Barros e Ana Teresa Leitão

DIRECÇÃO
Presidente: Guilherme d'Oliveira Martins
Vice-presidente: Maria Cristina Clímaco
Secretário: António José Paulino
Tesoureiro: Carlos Leonel Santos
Vogal: Maria João Rebordão

CONSELHO FISCAL
Presidente: Alberto Pinto de Magalhães
Secretário: António Sampaio de Carvalho
Relator: Luís Wemans

CONSELHO CONSULTIVO
António Freitas Leal
Bento Domingues
Francisco Sarsfield Cabral
Julieta Mendes Dias
Manuel Vilas-Boas
Pax Christi
Peter Stilwell

21 de março de 2005

Conferências de Maio

Durante o mês de Maio teremos as habituais Conferências.
3, 10, 17 e 24 de Maio.2005

3ªs. feiras, às 18:30 h no Auditório do Centro de Estudos da Ordem do Carmo, na R. de Stª Isabel, 130, Lisboa
Metro: Rato
Autocarros: 9, 20, 32 e 38

Tema Geral:
Boa Nova na Cidade Moderna

Em breve serão apresentados mais detalhes.

Gaudium et Spes - 4º Colóquio

CICLO DE COLÓQUIOS
Gaudium et Spes
Revisitação 40 anos depois


Dignidade da Família
19 Abril 2005, 3ª f, 18:30 h
Carlos Zorrinho
Francisco Sarsfield Cabral
Laurinda Alves
Local: Auditório do Centro Nacional de Cultura
Largo do Picadeiro, nº 10-1º. Lisboa.
(metro Baixa-Chiado)

14 de janeiro de 2005

Gaudium et Spes

CICLO DE COLÓQUIOS
Gaudium et Spes
Revisitação 40 anos depois

Terças feiras às 18h30m

1º Esperanças e Angústias do Homem no Mundo
18 Janeiro 2005
Alfreda Fonseca
João Salgueiro
P.e José Tolentino de Mendonça

2º A Igreja e a Vocação da Pessoa Humana
22 Fevereiro 2005

Manuel Carmo Ferreira
P.e Peter Stilwell
Teresa Venda

3º Papel da Igreja no Mundo Contemporâneo
15 Março 2005

Armando Salles Luís
Isabel Allegro
P.e Joaquim Carreira das Neves

Local: Auditório do Centro Nacional de Cultura
Largo do Picadeiro, nº 10-1º. Lisboa.
(metro Baixa-Chiado)

ENTRADA LIVRE

Os restantes colóquios deste ciclo serão posteriormente divulgados.

4 de novembro de 2004

Colóquios

Vamos retomar o CICLO DE COLÓQUIOS, com o tema genérico:
SETE PECADOS SOCIAIS
SETE SINAIS DE ESPERANÇA


6º - Fraude Fiscal/Responsabilidade Tributária
9 Novembro 2004 (3ª feira), 18:30 h
José Silva Lopes
José Luís Saldanha Sanches
Moderador: Ulisses Garrido

7º - Exclusão Social/Integração Humana
30 Novembro 2004 (3ª feira), 18:30 h
P.e Agostinho Jardim
Helena Cidade Moura
Moderador: José Pedro Castanheira

Local: Auditório do Centro Nacional de Cultura
Largo do Picadeiro, nº 10-1º. Lisboa.
(Metro: Baixa-Chiado)
ENTRADA LIVRE

31 de maio de 2004

Tragédia na Estrada / Responsabilidade Cívica

3ª feira, 8.Junho.2004, às 18:30 h
Tragédia na Estrada / Responsabilidade Cívica

Debate com:
Francisca Van Dunen (magistrada, Directora do DIAP)
Luís Osório (jornalista, director d'A Capital)

Moderador: Guilherme d'Oliveira Martins

Local: Centro Nacional de Cultura, R. do Picadeiro
Metro: Baixa/Chiado

Colóquio integrado na série 7 Pecados Sociais/7 Sinais de Esperança.

Esta série de colóquios será retomada em Setembro.

9 de maio de 2004

A ALMA DA EUROPA

Público
Por FREI BENTO DOMINGUES O.P.
Domingo, 09 de Maio de 2004


1. A questão das raízes cristãs" da Europa já foi muito debatida. Será, no entanto, pelo alcance das práticas de solidariedade entre os países ricos e pobres que essas raízes poderão provar se estão vivas ou mortas na grande aventura do recente alargamento.
Será também esse o teste mais adequado à verdade da tão falada "Nova Evangelização". Só com o desenvolvimento do espírito de fraternidade activa entre países tão diversos ela poderá fazer brilhar a luz de Cristo no coração do projecto europeu.
Pertence à vocação dos movimentos cristãos, às paróquias, às congregações religiosas e aos bispos, com sentido ecuménico, abraçar o desafio das exigências da construção europeia, isto é, a responsabilidade de todos por todos. Perante situações de grandes desigualdades sociais e económicas, é de justiça que as medidas a tomar favoreçam os mais débeis.
A Comissão das Conferências Episcopais da Comunidade Europeia tocou no essencial: a solidariedade deve tornar-se a verdadeira alma da Europa. Os cristãos dispõem de uma teologia da justiça, da generosidade e do amor gratuito que deve fermentar o debate político e as opções económicas.
A solidariedade não é fruto nem alimento do sentimentalismo. É um sinal de alta clarividência num mundo exposto aos choques das suas contínuas transformações e à ferocidade neoliberal.

2. Se os membros da UE abordarem os seus conflitos e dificuldades só em termos de perdas e ganhos económicos, atraiçoam o mais audacioso projecto humano dos séculos XX e XXI. Ora, no recente alargamento, os meios de comunicação social gastaram o tempo todo a falar do que iríamos ganhar ou perder em termos de ajudas europeias. Pareciam alérgicos à descoberta da identidade cultural e espiritual dos novos companheiros de viagem. E os emigrantes - que deveriam ser para nós a introdução diária ao conhecimento de outros povos - são vistos apenas sob o ângulo das vantagens económicas para empregadores ou como ladrões do trabalho.
Mas se a solidariedade se tornar a alma da Europa, se esta olhar as sociedades a partir das faixas como menos oportunidades, estaremos a criar algo de novo no mundo, uma enorme força moral de acolhimento do diferente, aberta a todos os povos e sobretudo à África, o continente à espera de vez e de voz.
Embora seja muito importante, a EU não deve fazer da defesa militar uma prioridade. A sua missão consiste em provar que o diálogo da solidariedade é a forma mais bela e eficaz para combater o terrorismo. Em nome da defesa, não deve gastar com o poder bélico aquilo que precisa para o desenvolvimento solidário dos povos, para a prática do diálogo intercultural e inter-religioso.

3. Foi o sentido da solidariedade que impulsionou a preparação do Encontro Internacional de 150 movimentos, comunidades e grupos católicos, evangélicos, ortodoxos e anglicanos, com o lema "Juntos pela Europa", previsto para ontem em Estugarda (Alemanha). Com essa grandiosa manifestação ecuménica pretende-se afirmar que a Europa a construir tem de respeitar e promover a polifonia de todas as suas vozes e as suas fronteiras serão pontes entre todos os continentes, a começar pela África.
O Congresso Internacional para a Nova Evangelização que deve afirmar hoje a antiga descoberta de S. Paulo - "em Cristo, não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher" - optou pela missão urbana. Começou em Viena em 2003. Este ano concretiza-se em Paris. Em 2005 chegará a Lisboa. Seguirá depois para Bruxelas e Budapeste.
O cristianismo nasceu e difundiu-se como realidade marcada pela vida urbana. Pagãos, segundo a etimologia latina, eram os aldeões, aqueles a quem ainda não tinha chegado a fé cristã. Por isso, à partida, o cristianismo foi, em primeiro lugar, uma mensagem de libertação e de alegria para quem vivia nas cidades. A cidade, entretanto, mudou. Quem acredita na energia inovadora do Evangelho tem de vencer novos obstáculos para testemunhar a sua eficácia.
É ainda mal conhecida a preparação do Congresso para a evangelização de Lisboa. Mas o Centro de Reflexão Cristã (CRC) não ficou à espera. Tomou a iniciativa de propor o tema "Cidade de Deus - Cidade das Pessoas" para as Conferências de Maio deste ano, que se realizam todas as terças-feiras, pelas 18h30, no Centro de Estudos da Ordem do Carmo, Rua de Santa Isabel, n.º 128.
O seu programa assume as questões essenciais: "A cidade como espaço de solidariedade"; "Sinais de Deus na cultura"; "Cultura e Religiões - Que diálogo?"; "Igreja - que presença no mundo urbano?"

Depois desta boa notícia de Lisboa, não posso esquecer que amanhã, dia 10, às 18h, no Centro D. António Ferreira Gomes, junto à Igreja de Cristo Rei (Porto), será prestada homenagem a Mário Figueirinhas, uma grande figura da renovação católica proposta pelo concílio Vaticano II, um editor de obras marcantes da cultura portuguesa e do humanismo cristão. E como poderia eu esquecer, nesta coluna, um grande amigo que teve a iniciativa de editar as crónicas que, domingo a domingo, entrego ao PÚBLICO? Por feliz coincidência, durante a homenagem de amanhã, será lançado o 2º volume do livro "As Religiões e a Cultura da Paz".

4 de maio de 2004

Crentes e Descrentes Debatem Deus nas Cidades

Por ANTÓNIO MARUJO
Público, Terça-feira, 04 de Maio de 2004

Debater a presença de Deus nas cidades é o pretexto para a edição de 2004 das "Conferências de Maio", do Centro de Reflexão Cristã (CRC), que hoje se inicia em Lisboa. Com o título genérico "Cidade de Deus - Cidade das Pessoas", o ciclo - sempre às terças-feiras, às 18h30h, no Centro de Estudos da Ordem do Carmo, Rua de Santa Isabel, 128, ao Rato, em Lisboa - pretende suscitar o diálogo entre crentes e descrentes, bem como entre pessoas de diferentes religiões.
"O papel histórico das religiões deve ser revalorizado. Os fundamentalismos, as seitas e o regresso da irracionalidade e da magia desenvolvem-se no vazio religioso", justifica o CRC, e combatem-se pelo "diálogo e no reconhecimento mútuo". "Conceitos como diálogo, erro, salvação, libertação e compaixão devem voltar a merecer atenção", até porque "a sobrevivência do fenómeno religioso, não como organização social mas como facto cultural vivo, num mundo secular, é um desafio positivo a que a religião e o pensamento devem responder seriamente".
O ciclo abre hoje com o debate sobre a cidade como espaço de solidariedade, com o arquitecto Nuno Teotónio Pereira, a ex-vereadora da Câmara de Lisboa Maria Calado e o padre Valentim Gonçalves, que se tem dedicado ao trabalho com populações mais desfavorecidas.
Na próxima semana, o poeta António Osório e o padre João Resina Rodrigues conversam sobre "Sinais de Deus na cultura". Dia 18, um muçulmano (AbdoolKarim Vakil), uma judia (Esther Mucznik) e um padre católico (Peter Stilwell) debatem o diálogo entre culturas e religiões. A última das Conferências de Maio vira-se para a "Igreja: que presença no mundo urbano?", com as intervenções do investigador social Alfredo Bruto da Costa, o arquitecto Duarte Nuno Simões e o padre António Janela, prior de uma paróquia de Lisboa.

CIDADE DE DEUS, CIDADE DAS PESSOAS

1. O Centro de Reflexão Cristã propõe para as Conferências de Maio de 2004 a especial ponderação do tema da presença de Deus e da religiosidade nas cidades dos nossos dias.
Temos de nos interrogar sobre o que se está a passar na transformação nas sociedades contemporâneas, e em especial na vida urbana. Vivemos num tempo em que a indiferença e a incompreensão dos outros parecem constituir a regra. Desconhecemo-nos mutuamente. O imediato e o efémero tomam o lugar dos valores da dignidade humana.
A economia é sobretudo vista como satisfação das necessidades materiais de curto prazo. A sociedade da comunicação e da informação tem levado, paradoxalmente, a que as pessoas tenham dificuldade em conhecer-se e em compreender a complexidade das diferenças. A exclusão e a injustiça criam barreiras que dificultam ou impedem o desenvolvimento humano.

2. As cidades dos nossos dias são lugares onde coexistem os membros de uma multidão indiferenciada, com dificuldade em encontrar um caminho de liberdade, responsabilidade e emancipação. Os egoísmos, o primado dos bens materiais, o culto do sucesso fácil e o consumismo como um fim em si constituem factores de esquecimento dos valores humanos.
A fragmentação social e económica, a intolerância e o esquecimento dos valores solidários caracterizam a sociedade em que vivemos. A afluência contrasta com a pobreza. A comunicação esconde a solidão. A ausência de memória e a desatenção aos sinais dos tempos contribuem ainda para o afastamento dos valores da compreensão mútua e do bem comum. No mundo de hoje, há um forte risco, por força da lógica cega do mercado, de transformar os cidadãos em seres egoístas, capazes de usar a lei apenas para afirmar os interesses próprios de uns contra os outros.

3. Como afirmou o Concílio Vaticano II, “o mundo moderno aparece, ao mesmo tempo, poderoso e fraco, capaz do melhor e do pior, na sua frente rasga-se o caminho da liberdade ou da escravidão, do progresso ou da regressão, da fraternidade ou do ódio” (G.S., 9). E assim, o “homem toma consciência de que depende dele a boa orientação das forças que pôs em movimento e que podem esmagá-lo ou servi-lo” (id.).

4. Uma “nova evangelização” e uma consciência religiosa capaz de transformar positivamente o mundo de liberdade e responsabilidade exigem a compreensão do que se passa na sociedade contemporânea e da necessidade de uma outra atitude – dialogante, solidária e exigente, que respeite a dignidade humana. Como viver a fé e os valores religiosos numa sociedade que permanentemente se transforma? Como ligar valores religiosos e modernidade? Como favorecer as relações humanas numa cidade de desconhecidos? Como tornar a cidade de hoje habitável, hospitaleira, lugar de encontro e factor positivo no sentido do enriquecimento das relações entre as pessoas? Como contrariar a tendência para o isolamento e a indiferença, numa cidade de condomínios fechados e de “ghettos”, que separa e favorece a solidão, em lugar de unir e de promover a convivialidade e o altruísmo? Como mobilizar energias e favorecer a cidadania activa no sentido de tornar as cidades contemporâneas sociedades de pessoas e não de “robots” anónimos?

5. Uma das questões mais urgentes no mundo contemporâneo, tem a ver com o modo como as culturas que se relacionam podem encontrar fundamentos éticos comuns. Como compreender os efeitos irracionais do confronto entre a fé dos fracos e a arrogância dos poderosos? Num tempo em que o vazio de valores gera a intolerância e os fundamentalismos, é tempo de favorecer a criação de pontes que permitam unir as pessoas, em lugar de continuar a construir cidades caracterizadas pela desunião e pela indiferença, pelo desconhecimento e pela incompreensão.

6. Numa sociedade aberta e pluralista é fundamental interrogarmo-nos sobre a presença de Deus. Não se trata de usar os valores religiosos como elementos de separação e triunfalismo, mas de partir da sua compreensão para o enriquecimento mútuo e para a construção durável de uma cultura de diálogo e de paz. A liberdade religiosa, o diálogo inter-religioso, a compreensão da dimensão espiritual da vida humana têm de constituir elementos de enriquecimento humano e social.
Eis por que é fundamental interrogarmo-nos sobre a presença de Deus na cultura das sociedades contemporâneas. Eis por que é necessário suscitarmos o diálogo entre pessoas, religiosas ou não, e entre diferentes confissões em torno do fenómeno religioso. O papel histórico das religiões deve ser revalorizado. Os fundamentalismos, as seitas e o regresso da irracionalidade e da magia desenvolvem-se no vazio religioso. Conceitos como diálogo, erro, salvação, libertação e compaixão devem voltar a merecer atenção.
Os cidadãos laicos e os concidadãos religiosos devem contribuir activamente para o debate das grandes questões da actualidade. O único modo de combater a indiferença e o relativismo, de um lado, e os fundamentalismos, de outro, está no diálogo e no reconhecimento mútuo. A sobrevivência do fenómeno religioso, não como organização social mas como facto cultural vivo, num mundo secular, é um desafio positivo a que a religião e o pensamento devem responder seriamente. Cidade de Deus, Cidade das pessoas – o diálogo é urgente e necessário.

27 de abril de 2004

Conferências de Maio 2004 do Centro de Reflexão Cristã

CIDADE DE DEUS - CIDADE DAS PESSOAS

* A cidade como espaço de Solidariedade
(3ª feira, 4.Mai.04 - 18:30 h)

Nuno Teotónio Pereira
Pe. Valentim Gonçalves
Maria Calado
moderador: Frei Bento Domingues

* Sinais de Deus na Cultura
(3ª feira, 11.Mai.04 - 18:30 h)

Adília Lopes
Pe. João Resina Rodrigues
António Osório
moderador: Guilherme d'Oliveira Martins

* Culturas e Religiões - Que diálogo?
(3ª feira, 18.Mai.04 - 18:30 h)

Pe. Peter Stilwell
Abdool Karim Vakil
Esther Muznick
moderador: Francisco Sarsfield Cabral

* Igreja - Que presença no Mundo Urbano
(3ª feira, 25.Mai.04 - 18:30 h)

Alfredo Bruto da Costa
Pe. António Janela
Duarte Nuno Simões
moderador: José Torres Campos

As Conferências de Maio serão realizadas às 3ªs. feiras, das 18:30 às 20 h,
no Centro de Estudos da Ordem do Carmo,
na R. de Stª Isabel, 130, Lisboa
Metro: Rato
Autocarros: 9, 20, 32 e 38

Morgado propõe publicitação de processos e condenações por corrupção

A propósito do Colóquio Corrupção/Cidadania Activa, com a participação de Maria José Morgado e Luís Salgado Matos
inserido no ciclo SETE PECADOS SOCIAIS / SETE SINAIS DE ESPERANÇA

Público, 17.Mar.04
Nuno Sá Lourenço


A juíza e ex-responsável da Polícia Judiciária, Maria José Morgado, defendeu ontem num colóquio a necessidade do Ministério da Justiça começar a fazer "publicidade periódica de notificações de operações suspeitas, processos, acusações e condenações ao nível do combate à corrupção". A autora do livro "Inimigo sem rosto - fraude e corrupção em Portugal" falou no Centro Nacional de Cultura, em Lisboa, sobre esse tema, tendo tido como co-orador o investigador universitário Luís Salgado Matos.

Entre as áreas abordadas, a ligação da política à corrupção foi dos mais debatidos. Depois de desafiada por Luís Salgado Matos a responder se existia falta de oferta política no combate ao fenómeno, a magistrada reconheceu "um grande fosso entre a preocupação política [com a corrupção] e os actos".

A inexistência de publicitação das investigações foi um exemplo dessa discrepância entre o discurso político e a sua conduta. Daí que Maria José Morgado tenha defendido a premência de "fazer uma estatística semestral ou anual [dos casos detectados] sem pôr em causa o bom nome das pessoas" A "falta de actuação da fiscalização em tempo real" foi outra das deficiências apontadas e "maus métodos de trabalho e más direcções", as razões apontadas para ausência de fiscalização eficiente. Sobre os métodos assinalou a "ausência de cruzamento de dados", a "impossibilidade de investigação a partir de sinais exteriores de riqueza", o "não acesso às contas bancárias", e a falta de "promoção pelo mérito". Aqui o dedo voltou a ser apontado aos políticos. A juíza afirmou que "enquanto as nomeações para as direcções fossem feitas por cartão partidário não teremos bons resultados".

O debate chegou também ao financiamento partidário, com a magistrada a defender "a demissão do líder partidário e o seu afastamento de qualquer cargo público durante uns anos". "Seria muito mais sério funcionar dessa forma, em vez de ter que se esperar pelo andamento de um processo-crime [tal como a lei prevê actualmente]", defendeu. Sobre o impacto da corrupção, e depois de questionada por Luís Salgado Matos sobre se o país não estaria a pintar um quadro demasiado negro da situação, Maria José Morgado foi buscar um exemplo para sustentar a análise "preocupante" que fez. "Hoje são os próprios empresários que reivindicam o fim do sigilo bancário, porque a corrupção só favorece a economia paralela". Maria José Morgado destacou ainda os efeitos negativos na economia ao lembrar que "a corrupção entra no bolso de cada um". Deu alguns exemplos: "Nós estamos a pagar auto-estradas mais caras por causa da corrupção. A corrupção pode até fazer aumentar o preço dos medicamentos." Maria José Morgado não se limitou a criticar o poder político, tendo considerado negativo o facto dos tribunais julgarem poucos casos. A juíza apresentou como um dos problemas no combate à corrupção "não termos o efeito disciplinador, pedagógico dos tribunais". "Falta esse barómetro", queixou-se a magistrada.

A meio do debate tentou mesmo defender a necessidade do combate à corrupção com uma comparação caseira: "A corrupção é como o pó numa casa. Pó vamos ter sempre, mas se deixamos de limpar, então é o caos."

A renovação do CRC

Centro de Reflexão Cristã renova-se e acentua diálogo inter-religioso e com não-cristãos

Guilherme d’Oliveira Martins novo presidente

Revista do Centro pode integrar redes internacionais

António Marujo, Público

Um novo Centro de Reflexão Cristã (CRC), com menos preocupações teológicas e mais centrado na “afirmação do lugar do cristão na sociedade moderna” e na promoção do “diálogo cívico e inter-religioso” – essas são as ideias principais de Guilherme d’Oliveira Martins, deputado e ex-ministro da Educação no Governo do PS, novo presidente do CRC, apostado na renovação desta organização.
Nascido no rescaldo do 25 de Abril de 1974, juntando na sua fundação católicos e protestantes e com uma acentuada vocação de dinamizar a reflexão cultural e teológica, o CRC impôs-se, ao longo destas quase três décadas, como um lugar de encontro de diferentes sensibilidades cívicas e religiosas. Mas, nos últimos anos, vários dos fundadores lançaram-se em outras iniciativas e o CRC acabou por se reduzir à organização de conferências.
A nova direcção, liderada por Guilherme d’Oliveira Martins, pretende que a actividade do centro se alargue também à promoção de estudos e inquéritos, de modo a compreender “novas realidades urbanas e fenómenos como a exclusão, a diversidade cultural ou a imigração”.
Em declarações ao PÚBLICO, o novo presidente diz que se trata de uma “estratégia de renovação: este é um novo tempo, que exige novas respostas”. Mas a nova direcção pretende “estabilizar a vocação do CRC” e fazer da instituição um lugar de diálogo entre cristãos e não-cristãos. Por isso, a primeira iniciativa que pretende ter algum impacto é a organização de um ciclo de debates sobre os pecados sociais e os sinais de esperança na sociedade portuguesa, propostos pelos bispos na última carta pastoral, de Setembro de 2003.
“Pretendemos não só analisar a situação, mas também apontar caminhos de solução para os problemas”, diz Oliveira Martins. Também nesse sentido, o presidente do centro diz pretender ir ao encontro de jovens universitários, no que respeita à sua participação nos estudos sobre as novas realidades urbanas.

A preocupação de complementaridade com outras organizações está também nos objectivos da nova direcção. Bem como o diálogo ecuménico e inter-religioso: o CRC foi pioneiro no diálogo inter-religioso em Portugal, recorda Oliveira Martins, e agora o centro quer voltar a “lançar pontes com outras confissões cristãs e outras religiões não cristãs”.
“Muitos debates que actualmente atravessam a Europa –como o caso do véu islâmico, em França – passam pelo diálogo inter-religioso”, afirma o presidente do CRC. “Esse é o único modo de contrariar formas radicais de fundamentalismo”, acrescenta.

Também a revista “Reflexão Cristã”, que foi pioneira na produção de uma reflexão cultural e teológica católica no pós-25 de Abril, será renovada, de modo a fazer dela um espaço de debate “aberto e plural”. A publicação do CRC irá integrar redes internacionais (Europa, Brasil, América Latina) de revistas especializadas, podendo mesmo vir a publicar, para Portugal, exclusivos de revistas como as francesas “Esprit” ou “Études”.