O CRC é um espaço de diálogo entre cristãos de diferentes sensibilidades, e entre cristãos e não cristãos.

19 de dezembro de 2006

Jesus muçulmano


Texto publicado no jornal Público na 3ª feira, 19 de Dezembro de 2006

Jesus muçulmano

Faranaz Keshavjee
Membro da Comunidade Ismailita


Jesus surge no Alcorão e nos Evangelhos (ditos) Muçulmanos como o Profeta do Amor; o Guia das virtudes cardinais: a Paciência, a Humildade, a Renúncia ao materialismo, o Silêncio. Jesus também aparece como o "obreiro dos milagres"; o "viajante"; o "arrependido"; o "Redentor". Jesus é para os muçulmanos o Selo dos Santos. Jesus, é o grande Sufi. Jesus também é muçulmano!

Conta-se que no tempo da Dinastia Buyida que governou a partir de Bagdad, aí entre os séculos X e XI, surgia um tipo de humanismo que Joel Kraemer chamou de Renascimento do Islão, anterior ao Renascimento europeu. Num contexto que merece consideração até para entender os fenómenos de diversidade étnica e religiosa que hoje afligem o mundo ocidental relativamente à guerra civil no Iraque, intelectuais e poetas, teólogos e juristas desse tempo conversavam sobre vários assuntos de interesse e relevância cosmopolita.

Nesse período da história Al-Tawhidi e Abu Sulaiman discutiam sobre pertenças religiosas e este último questionava Al-Tawhidi sobre a sua escolha pessoal. Perguntava Abu Sulaiman, se todas as religiões são iguais, isto é, se conduzem os seres humanos ao conhecimento do divino, da inspiração divina para dar um sentido à vida, e se Deus é só um, mas os caminhos para O conhecer podem divergir, por que razão era ele um muçulmano e não um crente de outra religião qualquer? Al-Tawhidi respondera: "Sou muçulmano porque experimentei este caminho, e sinto-me confortável assim.

É como se imaginássemos que estou a caminhar pelo deserto num dia em que o sol se encontra a brilhar com intensidade e calor mas onde, subitamente, surgem nuvens pesadas e cinzentas no céu, e caminhando percebo que pode estar a chegar uma tempestade; um pouco mais adiante, procurando refúgio e abrigo, vejo uma tenda que me parece segura e confortável e entro nela. Lá fora a chuva chega e é cada vez mais intensa e forte e eu sinto-me abrigado e protegido nesse lugar. De repente, noto que num canto da tenda está uma brecha, por onde entra água, e acaba por chover também um pouco dentro de minha casa. Olho para fora, espreito e avisto uma outra tenda, lá adiante, que me parece também um bom abrigo, mas observando com maior atenção, verifico que também nessa tenda existe uma outra fenda, não exactamente no mesmo lugar desta, mas há uma brecha noutro lugar, por onde a água também entra.
E penso assim para mim: ao invés de sair daqui, de onde estou, e atravessar este terreno lamacento, e molhar-me até chegar à outra tenda, onde também existe um buraco... deixa-me antes fazer desta onde estou a minha casa. E é assim que sou muçulmano!"

Inspirada por este sentido humanista e respondendo ao desafio lançado pelo Centro de Reflexão Cristã, fui estudar e conhecer Jesus - o Profeta do Islão. A investigação e reflexão sobre o papel que este Profeta maior teve para os muçulmanos e na história das civilizações islâmicas deixaram em mim uma profunda marca e convicção do quanto estamos todos, o mundo cristão e o islâmico, próximos uns dos outros.

Já tinha ouvido o Aga Khan, o Imã dos Ismailitas, dizer numa entrevista recente que não se pode pensar em choque de religiões quando existe tanto em comum entre as religiões de Abraão. De resto, também o sr. cardeal-patriarca Dom José Policarpo recentemente o disse, que há muito mais convergências do que divergências nestas tradições religiosas. Agora, reflectindo sobre o que fiquei a conhecer, compreendo melhor o que isto quer dizer.

Jesus é para os muçulmanos não só um Profeta mas também um Guia Espiritual que se demarcou de muitos outros tanto na forma como o Alcorão o descreve, enquanto um ayat (sinal) de Deus, mas também como um exemplo a seguir, na forma como os Evangelhos Muçulmanos proporcionaram o conhecimento sobre Jesus e moldaram a espiritualidade nas várias civilizações islâmicas. Jesus surge no Alcorão e nos Evangelhos (ditos) Muçulmanos como o Profeta do Amor; o Guia das virtudes cardinais: a Paciência, a Humildade, a Renúncia ao materialismo, o Silêncio. Jesus também aparece como o "obreiro dos milagres"; o "viajante"; o "arrependido"; o "Redentor". Jesus é para os muçulmanos o Selo dos Santos. Jesus, é o grande Sufi. Jesus também é muçulmano!

Se até hoje os muçulmanos, pelo menos os portugueses, assim como outros europeus e norte-americanos, vêm celebrando o Natal por questões culturais e sociais, porque coabitam espaços geográficos predominantemente cristãos e católicos, e às vezes até com um certo sentimento de heresia face às suas tradições religiosas originais, posso dizer com convicção, e com conhecimento, que devemos celebrar o Natal e o nascimento de Jesus numa perspectiva religiosa e espiritual de grande importância no mundo islâmico.

Numa postura semelhante à dos Buyidas, e já agora também à dos Fatimidas, seus contemporâneos, todos Shiitas, que são meus antecessores, e precursores de uma lógica de governação e de convivência humanista e pluralista, posicionei-me com alguma humildade perante o saber e o conhecimento sobre o Outro, e deixei-me "converter" à nobreza de uma grande espiritualidade que teve, e que tem ainda hoje, uma grande influência na forma como os muçulmanos aprenderam sobre a ética cosmopolita e os caminhos para conhecer Deus, que afinal, no entendimento do também Sufi Farid ud-Din Attar, somos nós todos juntos, o tal Simurgh da Conferência dos Pássaros, com as nossas diferenças, em plena harmonia e unidade.

Neste meu primeiro de muitos natais a celebrar, Inshallah, fica apenas um desejo sentido: que da mesma forma como quis conhecer o Outro, que afinal faz parte de mim, num desejo puro da minha curiosidade intelectual, humana e afectiva, também espero que todos esses "outros" tenham a mesma vontade e o mesmo desejo genuíno de conhecer também eles a "minha casa"; gostaria que re-conhecessem nos outros crentes, laicos ou religiosos, não apenas as diferenças, mas as mesmas ansiedades, as mesmas dúvidas, e a mesma esperança, que afinal nos tornam iguais, isto é, simplesmente humanos e vulneráveis perante as complexidades da vida.

4 de dezembro de 2006

Jesus nos Evangelhos apócrifos

Próximo Colóquio:

19 de Dezembro 2006, 3ª feira, às 18:30 h
no Centro Nacional de Cultura

Intervenções:
Pe. João Lourenço
Pe. Joaquim Carreira das Neves
José Augusto Ramos

CRISTIANISMO E ISLAMISMO - NOVOS DINAMISMOS

Comentário de José Leitão sobre o último colóquio do CRC, publicado no seu blog:

(...)
Ficou claro para todos o lugar de relevo que o Alcorão atribui a Jesus, filho Maria, Profeta, Verbo de Deus e Messias, concebido virginalmente por Maria, mas que não é Deus, não foi crucificado, nem morto, mas Deus elevou-o para Ele.
O Alcorão e as tradições islâmicas têm afinidades com as narrativas sobre Jesus dos Evangelhos canónicos de Mateus, Marcos e Lucas, manifestando também ecos de Evangelhos apócrifos.
Particularmente interessante, e diria mesmo perturbante, foi a intervenção e o testemunho da mais notável teóloga muçulmana portuguesa, da corrente xiita ismaili, Faranaz Keshavjee do seu encontro com o Jesus muçulmano. (...)

28 de novembro de 2006

Jesus profeta do Islão

Realizou-se a 28 de Novembro 2006 o 2º Colóquio desta série, com as intervenções de:

António Dias Farinha
Faranaz Keshavjee
Artur Cunha Oliveira


Guilherme d'Oliveira Martins (moderador)

29 de outubro de 2006

JESUS, JUDEU DA PALESTINA

Relato sobre o último colóquio do CRC, por José Leitão:

O CRC (Centro de Reflexão Cristã) iniciou um ciclo de «Diálogos sobre Jesus», extremamente interessante que nos colocam perante diversas compreensões da sua identidade, o que nos suscita a pergunta quem é para mim este homem.
Jesus nasceu judeu na Palestina, é considerado como profeta pelo Islão, são várias as narrativas gnósticas que dele nos dão retratos inesperados, é confessado como o Cristo por milhões de cristãos.
Os debates começaram pelo princípio, falando de Jesus judeu da Palestina. Jesus nasceu judeu, foi circuncidado, apresentado no Templo, frequentou e ensinou em sinagogas.
Estes debates começaram por interrogar Jesus como judeu da Palestina, com as intervenções de Alain Hayat e de José Tolentino de Mendonça.
Alain Hayat é um judeu francês nascido em Tunes, que trabalhou durante muitos anos em Portugal e que é Reitor da Sinagoga de Lisboa, e autor do livro “Éclats de Tora” e empenhado no diálogo inter-religioso no quadro do Forum Abraâmico. Fez uma abordagem muito serena e objectiva.
Considerou que seria mais correcto dizer que Jesus nasceu no Reino da Judeia, que era um protectorado de Roma, no qual exercia poder um governador romano e um rei local, e não na Palestina, designação mais associada, em seu entender ao mandato britânico sobre a região. Sublinhou que as fontes que dispomos sobre Jesus são textos gerados pela fé dos homens e não trabalhos de historiadores. Apoiando-se no historiador judeu do I século Flavius Joseph referiu que quando surgiu Jesus, a religião judaica estava dividida em várias tendências, numa situação de confronto e de desordem total.
Caracterizou várias tendências ou seitas: os saduceus, aristocracia conservadora muito ligada ao Templo de Jerusalém abertos a todo o tipo de compromissos com os romanos; os fariseus mais exigentes com um fundo nacionalista, que desenvolveram uma tradição oral, grupos místicos como os de Qumran, que desenvolvem conceitos como o de Mestre da Justiça, que pode ter tido eco em Jesus. Havia ainda os “brigantes”, os zelotas, que hoje chamaríamos fundamentalistas e que recorriam a atentados contra os romanos.
Não havia apenas uma grande divisão, mas também uma pergunta enorme sobre o futuro. Era um momento propício para uma mensagem forte. Jesus aparece ligado a símbolos fortes. Jesus é filho de José, filho preferido do patriarca Jacob, de cujo ramo sairá o Messias. Há um conjunto de coincidências e de pormenores relativos a Jesus que o ligam à tradição judaica. Jesus era um judeu que estava à procura de promover a santidade e de a generalizar. Naquela altura as discussões entre judeus, eram constantes e não provocavam rupturas. Jesus foi considerado durante toda a vida como judeu, com uma visão diferente. Só depois com os apóstolos e o desenvolvimento do cristianismo como religião se deu a ruptura.
José Tolentino de Mendonça, padre católico, doutorado em Ciências Bíblicas, poeta e escritor, reconheceu que faltam fontes para conhecer o judaísmo no tempo de Jesus. Jesus é-nos dado sempre através dos testemunhos e de uma comunidade que tem a referência da sua fé É necessária a mediação da linguagem e da comunidade e precisamos sempre de uma hermenêutica.
Estamos actualmente na terceira vaga de estudos acerca de Jesus. As duas anteriores descreviam Jesus com critérios de separação relativamente ao judaísmo. Hoje vinga o critério da plausibilidade.
É mais credível inseri-lo no contexto de um judaísmo que era uma realidade fragmentada, como o comprova o facto de se falar em tendências, o que vai permitir que um pregador da Galileia pudesse fazer o caminho que Jesus fez. Os próprios Evangelhos vão costurando os filamentos que explicam o movimento de Jesus. De referir, por exemplo, a sua ligação a João Baptista que bebe do entusiasmo reformador que existe no seu tempo.
Hoje muitos autores judeus escrevem sobre Jesus, sobre a sua dimensão de sábio à maneira dos rabinos com os seus grupos de discípulos, debatendo a partir de citações do Antigo Testamento. O método parabólico não é desconhecido da tradição judaica. Jesus explora a margem desse judaísmo plural de onde vai emergir o cristianismo. Outra dimensão de Jesus, é a profética e apocalíptica. Não é por acaso que Isaías é citado nos Evangelhos. O profetismo judaico é uma chave essencial para compreender.
Jesus faz um percurso solitário. A partir do capítulo 3 do Evangelho de Lucas não pode entrar nas cidades. Sofre a perseguição que sofriam os que reclamavam uma mudança do sistema religioso e social.
Os milagres, as curas, as refeições são essenciais para compreender o personagem Jesus, mostrando, por exemplo, na multiplicação dos pães a sua visão da sociedade.
O critério da plausibilidade é essencial para compreender Jesus, mas há um limite. Fica por explicar como morreu, como foi excluído dentro daquele sistema religioso e social. Jesus tem de ser explicado pela continuidade e pela ruptura. Jesus foi um judeu marginal, um camponês do Mediterrâneo, aberto ao helenismo, segundo outros autores. A pertença judaica é uma dimensão de Jesus, não nos diz tudo sobre ele.
Ao deixar aqui este apontamento quero sublinhar que a importância das questões abordadas nesta sessão justificariam a organização entre cristãos e judeus de um Seminário sobre este tema.
Era muito importante divulgar entre nós os autores desta terceira vaga de estudos sobre Jesus, incluindo os autores judeus. O suplemento “Mil Folhas”, de 8 de Julho de 2006 do jornal “Público” divulgou, por exemplo, um desses autores, Geza Vermes, mas infelizmente as suas obras ainda não estão publicadas em português.
Se me permitem uma sugestão não percam os próximos debates sobre Jesus, o primeiro dos quais será sobre Jesus como profeta do Islão.
Olhar em volta é a única forma de viver livre e de pensar livremente.

José Leitão

18 de outubro de 2006

Diálogos sobre Jesus

CICLO DE COLÓQUIOS 2006/2007

Terças-feiras às 18h30m

1º Jesus judeu da Palestina
24 de Outubro 2006

Alain Hayat
Pe. José Tolentino de Mendonça

2º Jesus profeta do Islão
28 de Novembro 2006


António Dias Farinha
Faranaz Keshavjee

Artur Cunha Oliveira

3º Jesus nos Evangelhos apócrifos
19 de Dezembro 2006


Pe. João Lourenço
Pe. Joaquim Carreira das Neves
José Augusto Ramos

4º Jesus Cristo História e Fé
23 de Janeiro 2007

Maria Julieta, rscm
D. Manuel Clemente

Local: Auditório do Centro Nacional de Cultura
Largo do Picadeiro, nº 10-1º. Lisboa.
(metro Baixa-Chiado)
ENTRADA LIVRE

7 de agosto de 2006

Reflexão Cristã nº 25-26 de 2005



Saiu um novo número da Reflexão Cristã, que inicia uma nova série, com novo grafismo e novo formato.

Este número dá realce à celebração do 30º aniversário do CRC, com a publicação do texto do José Leitão "CRC - Trinta anos de Presença Cristã" e publica um conjunto de intervenções que foram proferidas nas Conferências de Maio de 2005 - BOA NOVA NA CIDADE MODERNA. Textos de D. Carlos Azevedo, Jorge Wemans, Graça Franco, Catarina Pereira Miguel, Pe. Hermínio Rico, sj, Manuel Vilas Boas, Acácio Catarino, Pe. António Janela, Maria José Nogueira Pinto, Alfredo Bruto da Costa e Pe. José Manuel Pereira de Almeida.

Publica-se também o resumo da intervenção do Presidente do CRC na Catedral de Notre-Dame de Paris durante o Congresso da Nova Evangelização.

6 de julho de 2006

DOIS COMPROMISSOS

DOIS COMPROMISSOS
D. ANTÓNIO FERREIRA GOMES
D. SEBASTIÃO SOARES DE RESENDE

Colóquio
Dia 11de Julho de 2006
3ª feira às 18h30m


D. Carlos Azevedo
Caetano Pacheco de Andrade
Moderador: Guilherme d’Oliveira Martins


Local: Auditório do Centro Nacional de Cultura
Largo do Picadeiro, nº 10-1º. Lisboa.
(metro Baixa-Chiado)

26 de maio de 2006

A LIBERDADE RELIGIOSA NUM MUNDO PLURAL


· José Vera Jardim










· D. Manuel Clemente

24 de Maio, 4ª feira,18:30 H










A LIBERDADE RELIGIOSA NUM MUNDO PLURAL

· Pastora Idalina Sitanela

Moderadora: Maria Cristina Clímaco

18 de maio de 2006


17 de Maio, 4ª feira, 18:30H
IMAGENS DO RELIGIOSO NA COMUNICAÇÃO SOCIAL

Abdool Karim Vakil
Esther Mucznik
Pe. José Manuel Pereira de Almeida

Moderador: Fr. Bento Domingues

15 de maio de 2006

IMAGEM DO SAGRADO, IMAGENS DO MUNDO

José Leitão publicou o seguinte post sobre as Conferências de Maio no seu blog
IMAGEM DO SAGRADO, IMAGENS DO MUNDO

(...)
Na primeira conferência sobre o tema "A representação do sagrado no mundo da imagem" a escultora Clara Menéres referiu-se aos problemas e às querelas que suscitou a representação do sagrado no confronto entre o judaísmo, o islamismo e o cristianismo, bem como, em diversos momentos no interior do cristianismo, manifestando-se criticamente contra a forma como a figura humana é hoje muitas vezes degradada designadamente em campanhas publicitárias, muito longe da seriedade e o rigor que, por exemplo, se punha na produção de ícones no quadro da espiritualidade ortodoxa.

João Bénard da Costa analisou também esta questão referindo-se a outros períodos de questionamento da representação do sagrado no interior do cristianismo, por exemplo, por parte da reforma protestante. Ambos sublinharam que a questão da representação do sagrado se tornou mais viável no interior do cristianismo, em virtude de como diz S. João «o Verbo fez-se homem e habitou entre nós».

O facto de Deus se ter feito homem em Jesus, do qual nenhum Evangelho canónico ou apócrifo descreve os traços físicos, tornou legítima a sua representação, a qual teve uma influência decisiva na própria emergência e desenvolvimento da pintura e esculturas europeias.

O padre Peter Stilwell, como teólogo, sublinhou que a representação do sagrado reveste hoje outras formas e nos chega pelo cinema, por vezes, onde menos se espera e pela televisão. Referiu a propósito a morte de João Paulo II, a procissão da Imagem da Virgem de Fátima pelas ruas de Lisboa e os funerais da Madre Teresa de Calcutá ou até da Princesa Diana dada a imagem que tinha criado de dedicação a causas humanitárias. Ficou a convicção de que sem a opção do cristianismo pela representação do sagrado teria sido outra a arte na Europa, tendo a esse propósito, João Bénard da Costa evocado os trabalhos de Cristina Campo, para quem sem o cristianismo não teríamos tido a arte moderna.

Na segunda conferência o debate centrou-se sobre "Património da fé e na liberdade criadora", Faranaz Keshavjee deu como exemplo de liberdade criadora a forma como na comunidade ismaili é encarado o património cultural, referindo-se com detalhe ao Centro Ismaili de Lisboa e ao culto doméstico dos ismailis do Tajiquistão. Sublinhou como procuram conjugar a tradição, com o enraizamento local, pela utilização de materiais e formas que estabelecem pontes com o património local.

José Luís de Matos abordou a evolução das concepções e representações do sagrado desde as civilizações agrícolas, às civilizações mercantis, da oralidade ao audiovisual, passando pela escrita. Fez o que se poderemos designar como um itinerário de Deus, para evocar os trabalhos de Régis Debray sobre estas matérias, que citou.

Nuno Teotónio Pereira evocou como foi difícil o emergir do Movimento de Renovação da Arte Religiosa, há cerca de cinquenta anos, num contexto marcado pelas limitações que o salazarismo colocava à expressão artística, que não tivesse uma inspiração nacionalista.
Contou como arquitectos, pintores e músicos procuraram uma arte cristã, que estivesse de acordo com as realidades sociais, a sensibilidade e a espiritualidade modernas e não procurasse repetir de forma artificial o que tinha correspondido a outros tempos.
Foram referidos, como exemplos, a Igreja de Santo António de Moscavide, concebida por António Freitas Leal e João Almeida e a Igreja do Sagrado Coração de Jesus da autoria de Nuno Teotónio Pereira.
Em aberto ficou uma afirmação de José Luís de Matos de que o audiovisual e a Internet colocam desafios de grande novidade e radicalidade à representação e à ligação com o sagrado, que a Igreja tem dificuldade em pensar.

Este é precisamente o tema da próxima quarta-feira "Imagens do religioso na comunicação social", com a participação de Abddoal Karim Vakil, da comunidade islâmica, Ester Mucznik, da comunidade israelita de Lisboa, e do Padre José Manuel Pereira de Almeida.

11 de maio de 2006








PATRIMÓNIO DA FÉ E LIBERDADE CRIADORA
·
Faranaz Keshavjee
· José Luís de Matos
· Nuno Teotónio Pereira


Moderador: José Leitão

4 de maio de 2006




A REPRESENTAÇÃO DO SAGRADO NO MUNDO DA IMAGEM
· Clara Menéres
· João Bénard da Costa
· Pe. Peter Stilwell
Moderador: Guilherme d’Oliveira Martins

24 de abril de 2006

Conferências de Maio, 2006

IMAGEM DO SAGRADO, IMAGENS DO MUNDO

3 de Maio, 4ª feira, 18:30 H
A REPRESENTAÇÃO DO SAGRADO NO MUNDO DA IMAGEM
· Clara Menéres
· João Bénard da Costa
· Pe. Peter Stilwell
Moderador: Guilherme d’Oliveira Martins

10 de Maio, 4ª feira,18:30 H
PATRIMÓNIO DA FÉ E LIBERDADE CRIADORA
· Faranaz Keshavjee
· José Luís de Matos
· Nuno Teotónio Pereira
Moderador: José Leitão

17 de Maio, 4ª feira, 18:30H
IMAGENS DO RELIGIOSO NA COMUNICAÇÃO SOCIAL
· Abdool Karim Vakil
· Esther Mucznik
· Pe. José Manuel Pereira de Almeida
Moderador: Fr. Bento Domingues

24 de Maio, 4ª feira,18:30 H
A LIBERDADE RELIGIOSA NUM MUNDO PLURAL
· Pastora Idalina Sitanela
· José Vera Jardim
· D. Manuel Clemente
Moderador: Maria Cristina Clímaco

Local: Centro de Estudos da Ordem do Carmo
Rua de Santa Isabel, 128-130. Lisboa (Metro: Rato)

9 de abril de 2006

Reflexão Cristã nº 23-24 de 2004



Este número realça o ciclo de Colóquios organizados pelo CRC a partir da interpelação dos bispos portugueses – “SETE PECADOS SOCIAIS – SETE SINAIS DE ESPERANÇA”, com textos de Manuela Silva, Lídia Jorge, Helena Cidade Moura e do Pe. Agostinho Jardim.
Apresenta-se também uma súmula das intervenções das Conferências de Maio de 2004 – CIDADE DE DEUS – CIDADE DAS PESSOAS.

Um texto do fr. Luís de França, op sobre Yves-Marie Congar – um homem de fronteira, a transcrição da entrada sobre o CRC no 3º volume da “História Religiosa de Portugal”, da autoria de Paulo Oliveira Fontes, edição do Círculo de Leitores e uma selecção de textos apresentada por D. Manuel Clemente – “Ecclesia in Europa” numa conferência na sede do CRC, completam este número, com 88 páginas.

2 de março de 2006

CICLO DE COLÓQUIOS/Gaudium et Spes

Gaudium et Spes
Revisitação 40 anos depois

A Comunidade Política e a Salvaguarda da Paz

7 Março 2006, 3ª feira, às 18:30

Alberto Ramalheira
Armanda Saint-Maurice
José Torres Campos

Local: Auditório do Centro Nacional de Cultura
Largo do Picadeiro, nº 10-1º. Lisboa.
(metro Baixa-Chiado)

1 de fevereiro de 2006

Gaudium et Spes




A 31 de Janeiro o CRC fez o lançamento da edição da Constituição Pastoral sobre a Igreja Contemporânea - Gaudium et Spes.


Esta edição conta com um Prefácio de D. Carlos Azevedo (Bispo Auxiliar de Lisboa) e a capa foi feita pela Ana Oliveira Martins.






O colóquio, o 6º da série que o CRC realizou ao longo dos últimos meses, na revisitação da Gaudium et Spes, desta vez foi sobre a Vida Económico Social, foi realizado no auditório do Centro Nacional de Cultura e contou com as intervenções de Jorge Wemans (director da Dois), Manuela Silva (Presidente da Comissão Nacional de Justiça e Paz) e do D. Carlos Azevedo (bispo auxiliar de Lisboa) e foi moderado pelo Presidente do CRC, Guilherme d'Oliveira Martins.

27 de janeiro de 2006

Deus Caritas Est - Bento XVI

A propósito da recente publicação da 1ª encíclica do Papa Bento XVI, num artigo do Público, de 26.Jan.06, veio publicado o seguinte comentário do Presidente do CRC, Guilherme d'Oliveira Martins:

UMA ENCÍCLICA PARA O NOSSO TEMPO

“Deus Caritas est” (Deus é Amor) constitui uma agradável surpresa. Estamos perante uma encíclica que trata de um tema central no mundo contemporâneo – o lugar do outro e a relação entre as pessoas. E é muito interessante que Bento XVI tenha escolhido um tema transversal e susceptível de mobilizar vontades e energias. Assim, com um aparato teológico e filosófico bastante rico, fazendo jus a um percurso intelectual fecundo, o Papa põe no centro da reflexão da Igreja Católica o tema crucial da mensagem cristã – susceptível de lançar pontes de encontro e de diálogo, designadamente entre as várias religiões e todas as pessoas de boa vontade. “O amor é possível, e nós somos capazes de o praticar porque criados à imagem de Deus. Viver o amor é (…) fazer entrar a luz de Deus no mundo…” E que método preconiza o Sumo Pontífice nesta encíclica? O método simples e ancestral do exemplo, dos sinais concretos sobre “o amor com que Deus nos cumula e que deve ser comunicado aos outros por nós”. Num tempo em que tanto se fala de comunicação, torna-se indispensável ir os fundamentos da relação entre as pessoas e tirar consequências em termos de responsabilidade para com os outros. Trata-se de assumir e de preparar o “face a face”, de que fala S. Paulo, e que transforma a terceira virtude teologal, a caridade, em primeira, de que a fé e a esperança são subsidiárias. Eros, philia e agape são formas diferentes da relação humana. E Eros tem de ser compreendido, como equilíbrio na relação com o corpo, em lugar de esquecido o suprimido (“o eros quer-nos elevar ‘em extase’ para o Divino, conduzir-nos para além de nós próprios, mas por isso mesmo requer um caminho de ascese, renúncias, purificações e saneamentos”). E aqui há pistas muito importantes e inovadoras que lançam sinais de esperança. Bento XVI analisa cada uma das formas da relação humana e fá-lo citando não apenas (como era tradicional nas encíclicas) os livros sagrados e os padres da Igreja, mas também grandes autores, como Virgílio, Descartes, Kant, Nietzsche, a propósito do amor como “cuidado do outro e pelo outro”. Não se trata de cultivar uma abstracção, mas de partir e chegar às situações concretas. “Se na minha vida negligencio completamente a atenção do outro, importando-me apenas com ser ‘piedoso’ e cumprir os meus ‘deveres religiosos’, então definha também a relação com Deus”. No fundo, mais do que a felicidade, o que está em causa é o bem do outro – a partir da concepção de Deus como “fonte originária de todo o ser”. Mas, como construir uma “comunidade de amor”? Como assumir a “caridade como dever da Igreja”? Como ligar caridade e justiça? Eis o que está em causa.

18 de janeiro de 2006

Gaudium et Spes/A Vida Económico-Social

Revisitação 40 anos depois
6º Colóquio
A Vida Económico-Social
31 Janeiro 2006 (3ª f, às 18:30h)

D. Carlos Azevedo
Jorge Wemans
Manuela Silva

Lançamento da edição do CRC da Gaudium et Spes
com Prefácio de D. Carlos Azevedo

Local: Auditório do Centro Nacional de Cultura
Largo do Picadeiro, nº 10-1º. Lisboa.
(metro Baixa-Chiado)
ENTRADA LIVRE
Nota:
O 7º e último colóquio deste ciclo será divulgado em breve.

17 de janeiro de 2006

CRC 30 anos - fotos