O CRC é um espaço de diálogo entre cristãos de diferentes sensibilidades, e entre cristãos e não cristãos.

29 de outubro de 2006

JESUS, JUDEU DA PALESTINA

Relato sobre o último colóquio do CRC, por José Leitão:

O CRC (Centro de Reflexão Cristã) iniciou um ciclo de «Diálogos sobre Jesus», extremamente interessante que nos colocam perante diversas compreensões da sua identidade, o que nos suscita a pergunta quem é para mim este homem.
Jesus nasceu judeu na Palestina, é considerado como profeta pelo Islão, são várias as narrativas gnósticas que dele nos dão retratos inesperados, é confessado como o Cristo por milhões de cristãos.
Os debates começaram pelo princípio, falando de Jesus judeu da Palestina. Jesus nasceu judeu, foi circuncidado, apresentado no Templo, frequentou e ensinou em sinagogas.
Estes debates começaram por interrogar Jesus como judeu da Palestina, com as intervenções de Alain Hayat e de José Tolentino de Mendonça.
Alain Hayat é um judeu francês nascido em Tunes, que trabalhou durante muitos anos em Portugal e que é Reitor da Sinagoga de Lisboa, e autor do livro “Éclats de Tora” e empenhado no diálogo inter-religioso no quadro do Forum Abraâmico. Fez uma abordagem muito serena e objectiva.
Considerou que seria mais correcto dizer que Jesus nasceu no Reino da Judeia, que era um protectorado de Roma, no qual exercia poder um governador romano e um rei local, e não na Palestina, designação mais associada, em seu entender ao mandato britânico sobre a região. Sublinhou que as fontes que dispomos sobre Jesus são textos gerados pela fé dos homens e não trabalhos de historiadores. Apoiando-se no historiador judeu do I século Flavius Joseph referiu que quando surgiu Jesus, a religião judaica estava dividida em várias tendências, numa situação de confronto e de desordem total.
Caracterizou várias tendências ou seitas: os saduceus, aristocracia conservadora muito ligada ao Templo de Jerusalém abertos a todo o tipo de compromissos com os romanos; os fariseus mais exigentes com um fundo nacionalista, que desenvolveram uma tradição oral, grupos místicos como os de Qumran, que desenvolvem conceitos como o de Mestre da Justiça, que pode ter tido eco em Jesus. Havia ainda os “brigantes”, os zelotas, que hoje chamaríamos fundamentalistas e que recorriam a atentados contra os romanos.
Não havia apenas uma grande divisão, mas também uma pergunta enorme sobre o futuro. Era um momento propício para uma mensagem forte. Jesus aparece ligado a símbolos fortes. Jesus é filho de José, filho preferido do patriarca Jacob, de cujo ramo sairá o Messias. Há um conjunto de coincidências e de pormenores relativos a Jesus que o ligam à tradição judaica. Jesus era um judeu que estava à procura de promover a santidade e de a generalizar. Naquela altura as discussões entre judeus, eram constantes e não provocavam rupturas. Jesus foi considerado durante toda a vida como judeu, com uma visão diferente. Só depois com os apóstolos e o desenvolvimento do cristianismo como religião se deu a ruptura.
José Tolentino de Mendonça, padre católico, doutorado em Ciências Bíblicas, poeta e escritor, reconheceu que faltam fontes para conhecer o judaísmo no tempo de Jesus. Jesus é-nos dado sempre através dos testemunhos e de uma comunidade que tem a referência da sua fé É necessária a mediação da linguagem e da comunidade e precisamos sempre de uma hermenêutica.
Estamos actualmente na terceira vaga de estudos acerca de Jesus. As duas anteriores descreviam Jesus com critérios de separação relativamente ao judaísmo. Hoje vinga o critério da plausibilidade.
É mais credível inseri-lo no contexto de um judaísmo que era uma realidade fragmentada, como o comprova o facto de se falar em tendências, o que vai permitir que um pregador da Galileia pudesse fazer o caminho que Jesus fez. Os próprios Evangelhos vão costurando os filamentos que explicam o movimento de Jesus. De referir, por exemplo, a sua ligação a João Baptista que bebe do entusiasmo reformador que existe no seu tempo.
Hoje muitos autores judeus escrevem sobre Jesus, sobre a sua dimensão de sábio à maneira dos rabinos com os seus grupos de discípulos, debatendo a partir de citações do Antigo Testamento. O método parabólico não é desconhecido da tradição judaica. Jesus explora a margem desse judaísmo plural de onde vai emergir o cristianismo. Outra dimensão de Jesus, é a profética e apocalíptica. Não é por acaso que Isaías é citado nos Evangelhos. O profetismo judaico é uma chave essencial para compreender.
Jesus faz um percurso solitário. A partir do capítulo 3 do Evangelho de Lucas não pode entrar nas cidades. Sofre a perseguição que sofriam os que reclamavam uma mudança do sistema religioso e social.
Os milagres, as curas, as refeições são essenciais para compreender o personagem Jesus, mostrando, por exemplo, na multiplicação dos pães a sua visão da sociedade.
O critério da plausibilidade é essencial para compreender Jesus, mas há um limite. Fica por explicar como morreu, como foi excluído dentro daquele sistema religioso e social. Jesus tem de ser explicado pela continuidade e pela ruptura. Jesus foi um judeu marginal, um camponês do Mediterrâneo, aberto ao helenismo, segundo outros autores. A pertença judaica é uma dimensão de Jesus, não nos diz tudo sobre ele.
Ao deixar aqui este apontamento quero sublinhar que a importância das questões abordadas nesta sessão justificariam a organização entre cristãos e judeus de um Seminário sobre este tema.
Era muito importante divulgar entre nós os autores desta terceira vaga de estudos sobre Jesus, incluindo os autores judeus. O suplemento “Mil Folhas”, de 8 de Julho de 2006 do jornal “Público” divulgou, por exemplo, um desses autores, Geza Vermes, mas infelizmente as suas obras ainda não estão publicadas em português.
Se me permitem uma sugestão não percam os próximos debates sobre Jesus, o primeiro dos quais será sobre Jesus como profeta do Islão.
Olhar em volta é a única forma de viver livre e de pensar livremente.

José Leitão

18 de outubro de 2006

Diálogos sobre Jesus

CICLO DE COLÓQUIOS 2006/2007

Terças-feiras às 18h30m

1º Jesus judeu da Palestina
24 de Outubro 2006

Alain Hayat
Pe. José Tolentino de Mendonça

2º Jesus profeta do Islão
28 de Novembro 2006


António Dias Farinha
Faranaz Keshavjee

Artur Cunha Oliveira

3º Jesus nos Evangelhos apócrifos
19 de Dezembro 2006


Pe. João Lourenço
Pe. Joaquim Carreira das Neves
José Augusto Ramos

4º Jesus Cristo História e Fé
23 de Janeiro 2007

Maria Julieta, rscm
D. Manuel Clemente

Local: Auditório do Centro Nacional de Cultura
Largo do Picadeiro, nº 10-1º. Lisboa.
(metro Baixa-Chiado)
ENTRADA LIVRE

7 de agosto de 2006

Reflexão Cristã nº 25-26 de 2005



Saiu um novo número da Reflexão Cristã, que inicia uma nova série, com novo grafismo e novo formato.

Este número dá realce à celebração do 30º aniversário do CRC, com a publicação do texto do José Leitão "CRC - Trinta anos de Presença Cristã" e publica um conjunto de intervenções que foram proferidas nas Conferências de Maio de 2005 - BOA NOVA NA CIDADE MODERNA. Textos de D. Carlos Azevedo, Jorge Wemans, Graça Franco, Catarina Pereira Miguel, Pe. Hermínio Rico, sj, Manuel Vilas Boas, Acácio Catarino, Pe. António Janela, Maria José Nogueira Pinto, Alfredo Bruto da Costa e Pe. José Manuel Pereira de Almeida.

Publica-se também o resumo da intervenção do Presidente do CRC na Catedral de Notre-Dame de Paris durante o Congresso da Nova Evangelização.

6 de julho de 2006

DOIS COMPROMISSOS

DOIS COMPROMISSOS
D. ANTÓNIO FERREIRA GOMES
D. SEBASTIÃO SOARES DE RESENDE

Colóquio
Dia 11de Julho de 2006
3ª feira às 18h30m


D. Carlos Azevedo
Caetano Pacheco de Andrade
Moderador: Guilherme d’Oliveira Martins


Local: Auditório do Centro Nacional de Cultura
Largo do Picadeiro, nº 10-1º. Lisboa.
(metro Baixa-Chiado)

26 de maio de 2006

A LIBERDADE RELIGIOSA NUM MUNDO PLURAL


· José Vera Jardim










· D. Manuel Clemente

24 de Maio, 4ª feira,18:30 H










A LIBERDADE RELIGIOSA NUM MUNDO PLURAL

· Pastora Idalina Sitanela

Moderadora: Maria Cristina Clímaco

18 de maio de 2006


17 de Maio, 4ª feira, 18:30H
IMAGENS DO RELIGIOSO NA COMUNICAÇÃO SOCIAL

Abdool Karim Vakil
Esther Mucznik
Pe. José Manuel Pereira de Almeida

Moderador: Fr. Bento Domingues

15 de maio de 2006

IMAGEM DO SAGRADO, IMAGENS DO MUNDO

José Leitão publicou o seguinte post sobre as Conferências de Maio no seu blog
IMAGEM DO SAGRADO, IMAGENS DO MUNDO

(...)
Na primeira conferência sobre o tema "A representação do sagrado no mundo da imagem" a escultora Clara Menéres referiu-se aos problemas e às querelas que suscitou a representação do sagrado no confronto entre o judaísmo, o islamismo e o cristianismo, bem como, em diversos momentos no interior do cristianismo, manifestando-se criticamente contra a forma como a figura humana é hoje muitas vezes degradada designadamente em campanhas publicitárias, muito longe da seriedade e o rigor que, por exemplo, se punha na produção de ícones no quadro da espiritualidade ortodoxa.

João Bénard da Costa analisou também esta questão referindo-se a outros períodos de questionamento da representação do sagrado no interior do cristianismo, por exemplo, por parte da reforma protestante. Ambos sublinharam que a questão da representação do sagrado se tornou mais viável no interior do cristianismo, em virtude de como diz S. João «o Verbo fez-se homem e habitou entre nós».

O facto de Deus se ter feito homem em Jesus, do qual nenhum Evangelho canónico ou apócrifo descreve os traços físicos, tornou legítima a sua representação, a qual teve uma influência decisiva na própria emergência e desenvolvimento da pintura e esculturas europeias.

O padre Peter Stilwell, como teólogo, sublinhou que a representação do sagrado reveste hoje outras formas e nos chega pelo cinema, por vezes, onde menos se espera e pela televisão. Referiu a propósito a morte de João Paulo II, a procissão da Imagem da Virgem de Fátima pelas ruas de Lisboa e os funerais da Madre Teresa de Calcutá ou até da Princesa Diana dada a imagem que tinha criado de dedicação a causas humanitárias. Ficou a convicção de que sem a opção do cristianismo pela representação do sagrado teria sido outra a arte na Europa, tendo a esse propósito, João Bénard da Costa evocado os trabalhos de Cristina Campo, para quem sem o cristianismo não teríamos tido a arte moderna.

Na segunda conferência o debate centrou-se sobre "Património da fé e na liberdade criadora", Faranaz Keshavjee deu como exemplo de liberdade criadora a forma como na comunidade ismaili é encarado o património cultural, referindo-se com detalhe ao Centro Ismaili de Lisboa e ao culto doméstico dos ismailis do Tajiquistão. Sublinhou como procuram conjugar a tradição, com o enraizamento local, pela utilização de materiais e formas que estabelecem pontes com o património local.

José Luís de Matos abordou a evolução das concepções e representações do sagrado desde as civilizações agrícolas, às civilizações mercantis, da oralidade ao audiovisual, passando pela escrita. Fez o que se poderemos designar como um itinerário de Deus, para evocar os trabalhos de Régis Debray sobre estas matérias, que citou.

Nuno Teotónio Pereira evocou como foi difícil o emergir do Movimento de Renovação da Arte Religiosa, há cerca de cinquenta anos, num contexto marcado pelas limitações que o salazarismo colocava à expressão artística, que não tivesse uma inspiração nacionalista.
Contou como arquitectos, pintores e músicos procuraram uma arte cristã, que estivesse de acordo com as realidades sociais, a sensibilidade e a espiritualidade modernas e não procurasse repetir de forma artificial o que tinha correspondido a outros tempos.
Foram referidos, como exemplos, a Igreja de Santo António de Moscavide, concebida por António Freitas Leal e João Almeida e a Igreja do Sagrado Coração de Jesus da autoria de Nuno Teotónio Pereira.
Em aberto ficou uma afirmação de José Luís de Matos de que o audiovisual e a Internet colocam desafios de grande novidade e radicalidade à representação e à ligação com o sagrado, que a Igreja tem dificuldade em pensar.

Este é precisamente o tema da próxima quarta-feira "Imagens do religioso na comunicação social", com a participação de Abddoal Karim Vakil, da comunidade islâmica, Ester Mucznik, da comunidade israelita de Lisboa, e do Padre José Manuel Pereira de Almeida.

11 de maio de 2006








PATRIMÓNIO DA FÉ E LIBERDADE CRIADORA
·
Faranaz Keshavjee
· José Luís de Matos
· Nuno Teotónio Pereira


Moderador: José Leitão

4 de maio de 2006




A REPRESENTAÇÃO DO SAGRADO NO MUNDO DA IMAGEM
· Clara Menéres
· João Bénard da Costa
· Pe. Peter Stilwell
Moderador: Guilherme d’Oliveira Martins

24 de abril de 2006

Conferências de Maio, 2006

IMAGEM DO SAGRADO, IMAGENS DO MUNDO

3 de Maio, 4ª feira, 18:30 H
A REPRESENTAÇÃO DO SAGRADO NO MUNDO DA IMAGEM
· Clara Menéres
· João Bénard da Costa
· Pe. Peter Stilwell
Moderador: Guilherme d’Oliveira Martins

10 de Maio, 4ª feira,18:30 H
PATRIMÓNIO DA FÉ E LIBERDADE CRIADORA
· Faranaz Keshavjee
· José Luís de Matos
· Nuno Teotónio Pereira
Moderador: José Leitão

17 de Maio, 4ª feira, 18:30H
IMAGENS DO RELIGIOSO NA COMUNICAÇÃO SOCIAL
· Abdool Karim Vakil
· Esther Mucznik
· Pe. José Manuel Pereira de Almeida
Moderador: Fr. Bento Domingues

24 de Maio, 4ª feira,18:30 H
A LIBERDADE RELIGIOSA NUM MUNDO PLURAL
· Pastora Idalina Sitanela
· José Vera Jardim
· D. Manuel Clemente
Moderador: Maria Cristina Clímaco

Local: Centro de Estudos da Ordem do Carmo
Rua de Santa Isabel, 128-130. Lisboa (Metro: Rato)

9 de abril de 2006

Reflexão Cristã nº 23-24 de 2004



Este número realça o ciclo de Colóquios organizados pelo CRC a partir da interpelação dos bispos portugueses – “SETE PECADOS SOCIAIS – SETE SINAIS DE ESPERANÇA”, com textos de Manuela Silva, Lídia Jorge, Helena Cidade Moura e do Pe. Agostinho Jardim.
Apresenta-se também uma súmula das intervenções das Conferências de Maio de 2004 – CIDADE DE DEUS – CIDADE DAS PESSOAS.

Um texto do fr. Luís de França, op sobre Yves-Marie Congar – um homem de fronteira, a transcrição da entrada sobre o CRC no 3º volume da “História Religiosa de Portugal”, da autoria de Paulo Oliveira Fontes, edição do Círculo de Leitores e uma selecção de textos apresentada por D. Manuel Clemente – “Ecclesia in Europa” numa conferência na sede do CRC, completam este número, com 88 páginas.

2 de março de 2006

CICLO DE COLÓQUIOS/Gaudium et Spes

Gaudium et Spes
Revisitação 40 anos depois

A Comunidade Política e a Salvaguarda da Paz

7 Março 2006, 3ª feira, às 18:30

Alberto Ramalheira
Armanda Saint-Maurice
José Torres Campos

Local: Auditório do Centro Nacional de Cultura
Largo do Picadeiro, nº 10-1º. Lisboa.
(metro Baixa-Chiado)

1 de fevereiro de 2006

Gaudium et Spes




A 31 de Janeiro o CRC fez o lançamento da edição da Constituição Pastoral sobre a Igreja Contemporânea - Gaudium et Spes.


Esta edição conta com um Prefácio de D. Carlos Azevedo (Bispo Auxiliar de Lisboa) e a capa foi feita pela Ana Oliveira Martins.






O colóquio, o 6º da série que o CRC realizou ao longo dos últimos meses, na revisitação da Gaudium et Spes, desta vez foi sobre a Vida Económico Social, foi realizado no auditório do Centro Nacional de Cultura e contou com as intervenções de Jorge Wemans (director da Dois), Manuela Silva (Presidente da Comissão Nacional de Justiça e Paz) e do D. Carlos Azevedo (bispo auxiliar de Lisboa) e foi moderado pelo Presidente do CRC, Guilherme d'Oliveira Martins.

27 de janeiro de 2006

Deus Caritas Est - Bento XVI

A propósito da recente publicação da 1ª encíclica do Papa Bento XVI, num artigo do Público, de 26.Jan.06, veio publicado o seguinte comentário do Presidente do CRC, Guilherme d'Oliveira Martins:

UMA ENCÍCLICA PARA O NOSSO TEMPO

“Deus Caritas est” (Deus é Amor) constitui uma agradável surpresa. Estamos perante uma encíclica que trata de um tema central no mundo contemporâneo – o lugar do outro e a relação entre as pessoas. E é muito interessante que Bento XVI tenha escolhido um tema transversal e susceptível de mobilizar vontades e energias. Assim, com um aparato teológico e filosófico bastante rico, fazendo jus a um percurso intelectual fecundo, o Papa põe no centro da reflexão da Igreja Católica o tema crucial da mensagem cristã – susceptível de lançar pontes de encontro e de diálogo, designadamente entre as várias religiões e todas as pessoas de boa vontade. “O amor é possível, e nós somos capazes de o praticar porque criados à imagem de Deus. Viver o amor é (…) fazer entrar a luz de Deus no mundo…” E que método preconiza o Sumo Pontífice nesta encíclica? O método simples e ancestral do exemplo, dos sinais concretos sobre “o amor com que Deus nos cumula e que deve ser comunicado aos outros por nós”. Num tempo em que tanto se fala de comunicação, torna-se indispensável ir os fundamentos da relação entre as pessoas e tirar consequências em termos de responsabilidade para com os outros. Trata-se de assumir e de preparar o “face a face”, de que fala S. Paulo, e que transforma a terceira virtude teologal, a caridade, em primeira, de que a fé e a esperança são subsidiárias. Eros, philia e agape são formas diferentes da relação humana. E Eros tem de ser compreendido, como equilíbrio na relação com o corpo, em lugar de esquecido o suprimido (“o eros quer-nos elevar ‘em extase’ para o Divino, conduzir-nos para além de nós próprios, mas por isso mesmo requer um caminho de ascese, renúncias, purificações e saneamentos”). E aqui há pistas muito importantes e inovadoras que lançam sinais de esperança. Bento XVI analisa cada uma das formas da relação humana e fá-lo citando não apenas (como era tradicional nas encíclicas) os livros sagrados e os padres da Igreja, mas também grandes autores, como Virgílio, Descartes, Kant, Nietzsche, a propósito do amor como “cuidado do outro e pelo outro”. Não se trata de cultivar uma abstracção, mas de partir e chegar às situações concretas. “Se na minha vida negligencio completamente a atenção do outro, importando-me apenas com ser ‘piedoso’ e cumprir os meus ‘deveres religiosos’, então definha também a relação com Deus”. No fundo, mais do que a felicidade, o que está em causa é o bem do outro – a partir da concepção de Deus como “fonte originária de todo o ser”. Mas, como construir uma “comunidade de amor”? Como assumir a “caridade como dever da Igreja”? Como ligar caridade e justiça? Eis o que está em causa.

18 de janeiro de 2006

Gaudium et Spes/A Vida Económico-Social

Revisitação 40 anos depois
6º Colóquio
A Vida Económico-Social
31 Janeiro 2006 (3ª f, às 18:30h)

D. Carlos Azevedo
Jorge Wemans
Manuela Silva

Lançamento da edição do CRC da Gaudium et Spes
com Prefácio de D. Carlos Azevedo

Local: Auditório do Centro Nacional de Cultura
Largo do Picadeiro, nº 10-1º. Lisboa.
(metro Baixa-Chiado)
ENTRADA LIVRE
Nota:
O 7º e último colóquio deste ciclo será divulgado em breve.

17 de janeiro de 2006

CRC 30 anos - fotos





5 de dezembro de 2005

CRC 30 Anos

No sábado 3 de Dezembro foi feita a comemoração dos 30 anos do CRC.
Aqui está o texto da intervenção do José Leitão:


CRC – TRINTA ANOS DE PRESENÇA CRISTÃ

O Centro de Reflexão Cristã é, como todos sabeis, uma Associação espontânea e livremente constituída por leigos, religiosos, uma ou outra comunidade e movimentos cristãos, agindo sobre a sua exclusiva responsabilidade.
Completou já trinta anos de existência e faço votos que este encontro mais do que olhar para trás permita identificar linhas de acção para o futuro.
O facto de já ter trinta anos, durante os quais foi pioneiro em muitas áreas de reflexão e investigação, mostra que tinha razão de ser, e acrescento que continua a ter um lugar singular no quadro da Igreja e da sociedade portuguesa. Só permanece o que é e se torna imprescindível.
Não sou historiador e, por isso, não irei abordar estes trinta anos como tal, espero que outros o venham a fazer.
Constato no entanto, que hoje existe a tese de doutoramento da Catarina Silva Nunes, que nasceu um ano após a fundação do CRC, que faz uma aproximação ao que tem sido a intervenção de CRC, e que felizmente está publicada sob o título Compromissos Incontestados. A auto-representação dos intelectuais católicos portugueses, Edições Paulinas, Fevereiro de 2005 e que o Paulo Fontes publicou um texto interessante no 3.º volume da História Religiosa de Portugal, edição Círculo de Leitores.
É enorme a riqueza de vida que por ele tem passado: ideias, esperanças, amizades, redescobertas do sabor libertador da fé, experiências de celebração e oração.
Vale a pena tentar perceber em que medida o CRC tem conseguido concretizar o que foi definido como constituindo a sua identidade e os seus objectivos.
O art.º.2º dos Estatutos define como objectivo do Centro “o estudo da Teologia para crescimento na fé cristã, ao serviço da evangelização e da libertação, inicialmente do Povo Português, actualmente da Pessoa Humana” num registo que, creio, pretende ser mais universalista.
Para a realização dos seus fins, o Centro propõe-se, sobretudo através do trabalho cooperativo dos seus membros
a) promover e efectuar cursos, conferências, palestras, jornadas de estudo, seminários e congressos;
b) investigar e aprofundar teologicamente as experiências que grupos de cristãos estejam a viver no sentido da evangelização libertadora;
c) fomentar a constituição e funcionamento de grupos de trabalho ou de investigação em domínios ligados à sua actividade;
d) promover a edição de publicações.
Previa-se também a criação de um centro de documentação, que foi eliminado, por razões que ignoro, dos objectivos na última reforma estatutária.
Creio que muitos destes objectivos têm estado presentes nas actividades desenvolvidas pelo CRC nestes trinta anos., em que funcionou como incubador de iniciativas, muitas das quais pelo seu próprio sucesso deram origem a novas realidades.
O CRC promoveu, por exemplo, numa nova abordagem da história da Igreja, tendo contado com a colaboração do José Mattoso, sendo muitos dos que participaram nesta iniciativa hoje docentes, nesta área, na Universidade Católica Portuguesa.
O Departamento de Pesquisa Social, uma das muitas iniciativas da Manuela Silva, desenvolveu trabalhos em torno da pobreza e da exclusão social, e também sobre o que então foi designado por “minorias étnicas pobres”, numa época em que eram raros os estudos sobre a imigração. O Departamento viria a estar na origem de um centro de investigação, totalmente autónomo conhecido hoje como CESIS.
O CRC participou também activamente em múltiplas realizações sobre o lugar e a participação das mulheres na vida da Igreja.
Merece uma referência especial a continuidade e a qualidade, que apesar das dificuldades económicas, tem tido a revista Reflexão Cristã, bem como iniciativas marcantes como têm sido as Conferências de Maio.
O CRC foi o espaço onde se realizaram as primeiras iniciativas de diálogo inter-religioso, reunindo cristãos, muçulmanos e judeus, que há que prosseguir de forma mais organizada e sistemática.
Outras iniciativas extremamente interessantes não conseguiram a mesma continuidade. Refiro-me, por exemplo, aos Cadernos de Estudos Africanos, dirigidos pelo Frei Bento Domingues, que foi uma das iniciativas de diálogo com os cristãos de África através da atenção à teologia africana, que está tão ausente da Igreja portuguesa, apesar da África estar aqui tão perto e aqui tão dentro.
Sendo um espaço de reflexão, entendeu, por vezes tomar posições sobre questões concretas, pelo menos há mais de quinze anos, como a situação nas prisões, a lei de segurança interna, os salários em atraso, os efeitos da crise económica, o direito à objecção de consciência.
Mas o que considero ser um dos contributos mais continuados do CRC é o de procurar reflectir sobre os desafios da mutação cultural e a necessidade de pensar a presença dos cristãos e da Igreja numa sociedade democrática, plural e laica.
O facto de não ter desaparecido, como aconteceu com outras iniciativas, demonstra que é necessário institucionalizar minimamente a espontaneidade e a criatividade, recusar o espírito de seita iluminada e abrir-se permanentemente ao diálogo com outros grupos cristãos e não-cristãos, manter liberdade de iniciativa e de expressão, mas ter, ao mesmo tempo, um muito claro sentido de comunhão eclesial.
O CRC tem sido um espaço em que cristãos, a partir do seu empenhamento diverso e plural na construção de uma sociedade mais justa e fraterna, procuram reflectir sobre o sentido a dar a tudo isso à luz da sua fé no Deus de Jesus Cristo.
Há que reconhecer que muitos dos objectivos não têm sido prosseguidos, ou então têm-no sido com descontinuidade.
Temos de reconhecer que temos contribuído para a reflexão cristã, mas não para a investigação teológica. Por outro lado, O CRC não está a promover suficientemente o trabalho cooperativo dos seus membros, fomentando o funcionamento de grupos de trabalho ou de investigação em domínios ligados à sua actividade, tendo no seu historial muitas iniciativas interessantes neste domínio, que deram origem a publicações.
Não sendo o CRC uma comunidade não quero terminar sem deixar duas observações sobre esta questão.
A primeira prende-se com um encontro que tive quando fui Presidente do CRC com o Cardeal D. António Ribeiro. Discutia-se, então, se o CRC se deveria integrar organicamente na Igreja, tendo em conta as possibilidades abertas pelo novo Código de Direito Canónico. D. António Ribeiro entendia que não era necessário, o facto de sermos uma associação civil permitia uma maior liberdade de iniciativa no diálogo com os não-crentes e, sobretudo, acolher os que não sendo praticantes se sentiam atraídos por Jesus Cristo, embora tivessem reservas relativamente à Igreja. Caber-nos-ia avivar a chama que fumega e promover celebrações da fé, que não fossem necessariamente de natureza eucarística.
Tudo isto prende-se com uma ideia que julgo vale a pena considerar. Não sendo o CRC, uma comunidade, interrogo-me, se não seria de promover uma maior ligação com a Capela do Rato, e com a celebração das sete horas de sábado, ou com outras liturgias que se considere deverem ser promovidas.
A segunda e última observação que queria deixar era no sentido do CRC aproveitar a comemoração deste aniversário, não para qualquer reflexão hamletiana sobre a sua existência, mas para se abrir à entrada de novos sócios, que representem melhor a pluralidade crescente da sociedade portuguesa aos quais caberá promover a celebração dos próximos aniversários.

José Leitão

21 de novembro de 2005

CRC - 30 Anos de Memória Viva

Passaram 30 anos.
No sábado, 3 de Dezembro de 2005, vamos comemorar.
Será no Mosteiro de Santa Maria, das Monjas Dominicanas, na Quinta do Frade à Praça da Rainha D. Filipa (Lumiar - Av. Rainha D. Amélia)

CRC 30 ANOS DE MEMÓRIA VIVA

11h00 - Encontro
11h15 - Que história do CRC no Portugal democrático
Guilherme d’Oliveira Martins
José Leitão
12h00 - Eucaristia
13h00 - Almoço
14h30 - Que sentido de ser cristão hoje
Testemunhos
17h30 – Oração comunitária de encerramento

______
Notas:
Almoço - 10 euros.
Agradece-se inscrição por e-mail ou Tel. (3as e 5as, das 15h às 18h)
Haverá possibilidade de regularização de quotas.

Rua Castilho, 61 - 2º Dto. 1250-068 LISBOA. Tel. 21 386 19 52 - Fax 21 386 20 88
E-mail: centroreflexaocrista@oninet.pt - BLOG: www.centroreflexaocrista.blogspot.com

9 de outubro de 2005

Reflexão Cristã nº 23-24 de 2004



Este número realça o ciclo de Colóquios organizados pelo CRC a partir da interpelação dos bispos portugueses – “SETE PECADOS SOCIAIS – SETE SINAIS DE ESPERANÇA”, com textos de Manuela Silva, Lídia Jorge, Helena Cidade Moura e do Pe. Agostinho Jardim.
Apresenta-se também uma súmula das intervenções das Conferências de Maio de 2004 – CIDADE DE DEUS – CIDADE DAS PESSOAS.

Um texto do fr. Luís de França, op sobre Yves-Marie Congar – um homem de fronteira, a transcrição da entrada sobre o CRC no 3º volume da “História Religiosa de Portugal”, da autoria de Paulo Oliveira Fontes, edição do Círculo de Leitores e uma selecção de textos apresentada por D. Manuel Clemente – “Ecclesia in Europa” numa conferência na sede do CRC, completam este número, com 88 páginas.

24 de junho de 2005

5º Colóquio

5º Colóquio
Gaudium et Spes
Revisitação 40 anos depois

A Expansão da Cultura
3ª feira, 28 Junho 2005, às 18:30 h

Emília Nadal
Jorge Barreto Xavier
Pedro Sena-Lino

Local: Auditório do Centro Nacional de Cultura
Largo do Picadeiro, nº 10-1º Lisboa
(Metro Baixa-Chiado)