3ª feira, 8.Junho.2004, às 18:30 h
Tragédia na Estrada / Responsabilidade Cívica
Debate com:
Francisca Van Dunen (magistrada, Directora do DIAP)
Luís Osório (jornalista, director d'A Capital)
Moderador: Guilherme d'Oliveira Martins
Local: Centro Nacional de Cultura, R. do Picadeiro
Metro: Baixa/Chiado
Colóquio integrado na série 7 Pecados Sociais/7 Sinais de Esperança.
Esta série de colóquios será retomada em Setembro.
31 de maio de 2004
Tragédia na Estrada / Responsabilidade Cívica
9 de maio de 2004
A ALMA DA EUROPA
Público
Por FREI BENTO DOMINGUES O.P.
Domingo, 09 de Maio de 2004
1. A questão das raízes cristãs" da Europa já foi muito debatida. Será, no entanto, pelo alcance das práticas de solidariedade entre os países ricos e pobres que essas raízes poderão provar se estão vivas ou mortas na grande aventura do recente alargamento.
Será também esse o teste mais adequado à verdade da tão falada "Nova Evangelização". Só com o desenvolvimento do espírito de fraternidade activa entre países tão diversos ela poderá fazer brilhar a luz de Cristo no coração do projecto europeu.
Pertence à vocação dos movimentos cristãos, às paróquias, às congregações religiosas e aos bispos, com sentido ecuménico, abraçar o desafio das exigências da construção europeia, isto é, a responsabilidade de todos por todos. Perante situações de grandes desigualdades sociais e económicas, é de justiça que as medidas a tomar favoreçam os mais débeis.
A Comissão das Conferências Episcopais da Comunidade Europeia tocou no essencial: a solidariedade deve tornar-se a verdadeira alma da Europa. Os cristãos dispõem de uma teologia da justiça, da generosidade e do amor gratuito que deve fermentar o debate político e as opções económicas.
A solidariedade não é fruto nem alimento do sentimentalismo. É um sinal de alta clarividência num mundo exposto aos choques das suas contínuas transformações e à ferocidade neoliberal.
2. Se os membros da UE abordarem os seus conflitos e dificuldades só em termos de perdas e ganhos económicos, atraiçoam o mais audacioso projecto humano dos séculos XX e XXI. Ora, no recente alargamento, os meios de comunicação social gastaram o tempo todo a falar do que iríamos ganhar ou perder em termos de ajudas europeias. Pareciam alérgicos à descoberta da identidade cultural e espiritual dos novos companheiros de viagem. E os emigrantes - que deveriam ser para nós a introdução diária ao conhecimento de outros povos - são vistos apenas sob o ângulo das vantagens económicas para empregadores ou como ladrões do trabalho.
Mas se a solidariedade se tornar a alma da Europa, se esta olhar as sociedades a partir das faixas como menos oportunidades, estaremos a criar algo de novo no mundo, uma enorme força moral de acolhimento do diferente, aberta a todos os povos e sobretudo à África, o continente à espera de vez e de voz.
Embora seja muito importante, a EU não deve fazer da defesa militar uma prioridade. A sua missão consiste em provar que o diálogo da solidariedade é a forma mais bela e eficaz para combater o terrorismo. Em nome da defesa, não deve gastar com o poder bélico aquilo que precisa para o desenvolvimento solidário dos povos, para a prática do diálogo intercultural e inter-religioso.
3. Foi o sentido da solidariedade que impulsionou a preparação do Encontro Internacional de 150 movimentos, comunidades e grupos católicos, evangélicos, ortodoxos e anglicanos, com o lema "Juntos pela Europa", previsto para ontem em Estugarda (Alemanha). Com essa grandiosa manifestação ecuménica pretende-se afirmar que a Europa a construir tem de respeitar e promover a polifonia de todas as suas vozes e as suas fronteiras serão pontes entre todos os continentes, a começar pela África.
O Congresso Internacional para a Nova Evangelização que deve afirmar hoje a antiga descoberta de S. Paulo - "em Cristo, não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher" - optou pela missão urbana. Começou em Viena em 2003. Este ano concretiza-se em Paris. Em 2005 chegará a Lisboa. Seguirá depois para Bruxelas e Budapeste.
O cristianismo nasceu e difundiu-se como realidade marcada pela vida urbana. Pagãos, segundo a etimologia latina, eram os aldeões, aqueles a quem ainda não tinha chegado a fé cristã. Por isso, à partida, o cristianismo foi, em primeiro lugar, uma mensagem de libertação e de alegria para quem vivia nas cidades. A cidade, entretanto, mudou. Quem acredita na energia inovadora do Evangelho tem de vencer novos obstáculos para testemunhar a sua eficácia.
É ainda mal conhecida a preparação do Congresso para a evangelização de Lisboa. Mas o Centro de Reflexão Cristã (CRC) não ficou à espera. Tomou a iniciativa de propor o tema "Cidade de Deus - Cidade das Pessoas" para as Conferências de Maio deste ano, que se realizam todas as terças-feiras, pelas 18h30, no Centro de Estudos da Ordem do Carmo, Rua de Santa Isabel, n.º 128.
O seu programa assume as questões essenciais: "A cidade como espaço de solidariedade"; "Sinais de Deus na cultura"; "Cultura e Religiões - Que diálogo?"; "Igreja - que presença no mundo urbano?"
Depois desta boa notícia de Lisboa, não posso esquecer que amanhã, dia 10, às 18h, no Centro D. António Ferreira Gomes, junto à Igreja de Cristo Rei (Porto), será prestada homenagem a Mário Figueirinhas, uma grande figura da renovação católica proposta pelo concílio Vaticano II, um editor de obras marcantes da cultura portuguesa e do humanismo cristão. E como poderia eu esquecer, nesta coluna, um grande amigo que teve a iniciativa de editar as crónicas que, domingo a domingo, entrego ao PÚBLICO? Por feliz coincidência, durante a homenagem de amanhã, será lançado o 2º volume do livro "As Religiões e a Cultura da Paz".
4 de maio de 2004
Crentes e Descrentes Debatem Deus nas Cidades
Por ANTÓNIO MARUJO
Público, Terça-feira, 04 de Maio de 2004
Debater a presença de Deus nas cidades é o pretexto para a edição de 2004 das "Conferências de Maio", do Centro de Reflexão Cristã (CRC), que hoje se inicia em Lisboa. Com o título genérico "Cidade de Deus - Cidade das Pessoas", o ciclo - sempre às terças-feiras, às 18h30h, no Centro de Estudos da Ordem do Carmo, Rua de Santa Isabel, 128, ao Rato, em Lisboa - pretende suscitar o diálogo entre crentes e descrentes, bem como entre pessoas de diferentes religiões.
"O papel histórico das religiões deve ser revalorizado. Os fundamentalismos, as seitas e o regresso da irracionalidade e da magia desenvolvem-se no vazio religioso", justifica o CRC, e combatem-se pelo "diálogo e no reconhecimento mútuo". "Conceitos como diálogo, erro, salvação, libertação e compaixão devem voltar a merecer atenção", até porque "a sobrevivência do fenómeno religioso, não como organização social mas como facto cultural vivo, num mundo secular, é um desafio positivo a que a religião e o pensamento devem responder seriamente".
O ciclo abre hoje com o debate sobre a cidade como espaço de solidariedade, com o arquitecto Nuno Teotónio Pereira, a ex-vereadora da Câmara de Lisboa Maria Calado e o padre Valentim Gonçalves, que se tem dedicado ao trabalho com populações mais desfavorecidas.
Na próxima semana, o poeta António Osório e o padre João Resina Rodrigues conversam sobre "Sinais de Deus na cultura". Dia 18, um muçulmano (AbdoolKarim Vakil), uma judia (Esther Mucznik) e um padre católico (Peter Stilwell) debatem o diálogo entre culturas e religiões. A última das Conferências de Maio vira-se para a "Igreja: que presença no mundo urbano?", com as intervenções do investigador social Alfredo Bruto da Costa, o arquitecto Duarte Nuno Simões e o padre António Janela, prior de uma paróquia de Lisboa.
CIDADE DE DEUS, CIDADE DAS PESSOAS
1. O Centro de Reflexão Cristã propõe para as Conferências de Maio de 2004 a especial ponderação do tema da presença de Deus e da religiosidade nas cidades dos nossos dias.
Temos de nos interrogar sobre o que se está a passar na transformação nas sociedades contemporâneas, e em especial na vida urbana. Vivemos num tempo em que a indiferença e a incompreensão dos outros parecem constituir a regra. Desconhecemo-nos mutuamente. O imediato e o efémero tomam o lugar dos valores da dignidade humana.
A economia é sobretudo vista como satisfação das necessidades materiais de curto prazo. A sociedade da comunicação e da informação tem levado, paradoxalmente, a que as pessoas tenham dificuldade em conhecer-se e em compreender a complexidade das diferenças. A exclusão e a injustiça criam barreiras que dificultam ou impedem o desenvolvimento humano.
2. As cidades dos nossos dias são lugares onde coexistem os membros de uma multidão indiferenciada, com dificuldade em encontrar um caminho de liberdade, responsabilidade e emancipação. Os egoísmos, o primado dos bens materiais, o culto do sucesso fácil e o consumismo como um fim em si constituem factores de esquecimento dos valores humanos.
A fragmentação social e económica, a intolerância e o esquecimento dos valores solidários caracterizam a sociedade em que vivemos. A afluência contrasta com a pobreza. A comunicação esconde a solidão. A ausência de memória e a desatenção aos sinais dos tempos contribuem ainda para o afastamento dos valores da compreensão mútua e do bem comum. No mundo de hoje, há um forte risco, por força da lógica cega do mercado, de transformar os cidadãos em seres egoístas, capazes de usar a lei apenas para afirmar os interesses próprios de uns contra os outros.
3. Como afirmou o Concílio Vaticano II, “o mundo moderno aparece, ao mesmo tempo, poderoso e fraco, capaz do melhor e do pior, na sua frente rasga-se o caminho da liberdade ou da escravidão, do progresso ou da regressão, da fraternidade ou do ódio” (G.S., 9). E assim, o “homem toma consciência de que depende dele a boa orientação das forças que pôs em movimento e que podem esmagá-lo ou servi-lo” (id.).
4. Uma “nova evangelização” e uma consciência religiosa capaz de transformar positivamente o mundo de liberdade e responsabilidade exigem a compreensão do que se passa na sociedade contemporânea e da necessidade de uma outra atitude – dialogante, solidária e exigente, que respeite a dignidade humana. Como viver a fé e os valores religiosos numa sociedade que permanentemente se transforma? Como ligar valores religiosos e modernidade? Como favorecer as relações humanas numa cidade de desconhecidos? Como tornar a cidade de hoje habitável, hospitaleira, lugar de encontro e factor positivo no sentido do enriquecimento das relações entre as pessoas? Como contrariar a tendência para o isolamento e a indiferença, numa cidade de condomínios fechados e de “ghettos”, que separa e favorece a solidão, em lugar de unir e de promover a convivialidade e o altruísmo? Como mobilizar energias e favorecer a cidadania activa no sentido de tornar as cidades contemporâneas sociedades de pessoas e não de “robots” anónimos?
5. Uma das questões mais urgentes no mundo contemporâneo, tem a ver com o modo como as culturas que se relacionam podem encontrar fundamentos éticos comuns. Como compreender os efeitos irracionais do confronto entre a fé dos fracos e a arrogância dos poderosos? Num tempo em que o vazio de valores gera a intolerância e os fundamentalismos, é tempo de favorecer a criação de pontes que permitam unir as pessoas, em lugar de continuar a construir cidades caracterizadas pela desunião e pela indiferença, pelo desconhecimento e pela incompreensão.
6. Numa sociedade aberta e pluralista é fundamental interrogarmo-nos sobre a presença de Deus. Não se trata de usar os valores religiosos como elementos de separação e triunfalismo, mas de partir da sua compreensão para o enriquecimento mútuo e para a construção durável de uma cultura de diálogo e de paz. A liberdade religiosa, o diálogo inter-religioso, a compreensão da dimensão espiritual da vida humana têm de constituir elementos de enriquecimento humano e social.
Eis por que é fundamental interrogarmo-nos sobre a presença de Deus na cultura das sociedades contemporâneas. Eis por que é necessário suscitarmos o diálogo entre pessoas, religiosas ou não, e entre diferentes confissões em torno do fenómeno religioso. O papel histórico das religiões deve ser revalorizado. Os fundamentalismos, as seitas e o regresso da irracionalidade e da magia desenvolvem-se no vazio religioso. Conceitos como diálogo, erro, salvação, libertação e compaixão devem voltar a merecer atenção.
Os cidadãos laicos e os concidadãos religiosos devem contribuir activamente para o debate das grandes questões da actualidade. O único modo de combater a indiferença e o relativismo, de um lado, e os fundamentalismos, de outro, está no diálogo e no reconhecimento mútuo. A sobrevivência do fenómeno religioso, não como organização social mas como facto cultural vivo, num mundo secular, é um desafio positivo a que a religião e o pensamento devem responder seriamente. Cidade de Deus, Cidade das pessoas – o diálogo é urgente e necessário.
27 de abril de 2004
Conferências de Maio 2004 do Centro de Reflexão Cristã
CIDADE DE DEUS - CIDADE DAS PESSOAS
* A cidade como espaço de Solidariedade
(3ª feira, 4.Mai.04 - 18:30 h)
Nuno Teotónio Pereira
Pe. Valentim Gonçalves
Maria Calado
moderador: Frei Bento Domingues
* Sinais de Deus na Cultura
(3ª feira, 11.Mai.04 - 18:30 h)
Adília Lopes
Pe. João Resina Rodrigues
António Osório
moderador: Guilherme d'Oliveira Martins
* Culturas e Religiões - Que diálogo?
(3ª feira, 18.Mai.04 - 18:30 h)
Pe. Peter Stilwell
Abdool Karim Vakil
Esther Muznick
moderador: Francisco Sarsfield Cabral
* Igreja - Que presença no Mundo Urbano
(3ª feira, 25.Mai.04 - 18:30 h)
Alfredo Bruto da Costa
Pe. António Janela
Duarte Nuno Simões
moderador: José Torres Campos
As Conferências de Maio serão realizadas às 3ªs. feiras, das 18:30 às 20 h,
no Centro de Estudos da Ordem do Carmo,
na R. de Stª Isabel, 130, Lisboa
Metro: Rato
Autocarros: 9, 20, 32 e 38
Morgado propõe publicitação de processos e condenações por corrupção
A propósito do Colóquio Corrupção/Cidadania Activa, com a participação de Maria José Morgado e Luís Salgado Matos
inserido no ciclo SETE PECADOS SOCIAIS / SETE SINAIS DE ESPERANÇA
Público, 17.Mar.04
Nuno Sá Lourenço
A juíza e ex-responsável da Polícia Judiciária, Maria José Morgado, defendeu ontem num colóquio a necessidade do Ministério da Justiça começar a fazer "publicidade periódica de notificações de operações suspeitas, processos, acusações e condenações ao nível do combate à corrupção". A autora do livro "Inimigo sem rosto - fraude e corrupção em Portugal" falou no Centro Nacional de Cultura, em Lisboa, sobre esse tema, tendo tido como co-orador o investigador universitário Luís Salgado Matos.
Entre as áreas abordadas, a ligação da política à corrupção foi dos mais debatidos. Depois de desafiada por Luís Salgado Matos a responder se existia falta de oferta política no combate ao fenómeno, a magistrada reconheceu "um grande fosso entre a preocupação política [com a corrupção] e os actos".
A inexistência de publicitação das investigações foi um exemplo dessa discrepância entre o discurso político e a sua conduta. Daí que Maria José Morgado tenha defendido a premência de "fazer uma estatística semestral ou anual [dos casos detectados] sem pôr em causa o bom nome das pessoas" A "falta de actuação da fiscalização em tempo real" foi outra das deficiências apontadas e "maus métodos de trabalho e más direcções", as razões apontadas para ausência de fiscalização eficiente. Sobre os métodos assinalou a "ausência de cruzamento de dados", a "impossibilidade de investigação a partir de sinais exteriores de riqueza", o "não acesso às contas bancárias", e a falta de "promoção pelo mérito". Aqui o dedo voltou a ser apontado aos políticos. A juíza afirmou que "enquanto as nomeações para as direcções fossem feitas por cartão partidário não teremos bons resultados".
O debate chegou também ao financiamento partidário, com a magistrada a defender "a demissão do líder partidário e o seu afastamento de qualquer cargo público durante uns anos". "Seria muito mais sério funcionar dessa forma, em vez de ter que se esperar pelo andamento de um processo-crime [tal como a lei prevê actualmente]", defendeu. Sobre o impacto da corrupção, e depois de questionada por Luís Salgado Matos sobre se o país não estaria a pintar um quadro demasiado negro da situação, Maria José Morgado foi buscar um exemplo para sustentar a análise "preocupante" que fez. "Hoje são os próprios empresários que reivindicam o fim do sigilo bancário, porque a corrupção só favorece a economia paralela". Maria José Morgado destacou ainda os efeitos negativos na economia ao lembrar que "a corrupção entra no bolso de cada um". Deu alguns exemplos: "Nós estamos a pagar auto-estradas mais caras por causa da corrupção. A corrupção pode até fazer aumentar o preço dos medicamentos." Maria José Morgado não se limitou a criticar o poder político, tendo considerado negativo o facto dos tribunais julgarem poucos casos. A juíza apresentou como um dos problemas no combate à corrupção "não termos o efeito disciplinador, pedagógico dos tribunais". "Falta esse barómetro", queixou-se a magistrada.
A meio do debate tentou mesmo defender a necessidade do combate à corrupção com uma comparação caseira: "A corrupção é como o pó numa casa. Pó vamos ter sempre, mas se deixamos de limpar, então é o caos."
A renovação do CRC
Centro de Reflexão Cristã renova-se e acentua diálogo inter-religioso e com não-cristãos
Guilherme d’Oliveira Martins novo presidente
Revista do Centro pode integrar redes internacionais
António Marujo, Público
Um novo Centro de Reflexão Cristã (CRC), com menos preocupações teológicas e mais centrado na “afirmação do lugar do cristão na sociedade moderna” e na promoção do “diálogo cívico e inter-religioso” – essas são as ideias principais de Guilherme d’Oliveira Martins, deputado e ex-ministro da Educação no Governo do PS, novo presidente do CRC, apostado na renovação desta organização.
Nascido no rescaldo do 25 de Abril de 1974, juntando na sua fundação católicos e protestantes e com uma acentuada vocação de dinamizar a reflexão cultural e teológica, o CRC impôs-se, ao longo destas quase três décadas, como um lugar de encontro de diferentes sensibilidades cívicas e religiosas. Mas, nos últimos anos, vários dos fundadores lançaram-se em outras iniciativas e o CRC acabou por se reduzir à organização de conferências.
A nova direcção, liderada por Guilherme d’Oliveira Martins, pretende que a actividade do centro se alargue também à promoção de estudos e inquéritos, de modo a compreender “novas realidades urbanas e fenómenos como a exclusão, a diversidade cultural ou a imigração”.
Em declarações ao PÚBLICO, o novo presidente diz que se trata de uma “estratégia de renovação: este é um novo tempo, que exige novas respostas”. Mas a nova direcção pretende “estabilizar a vocação do CRC” e fazer da instituição um lugar de diálogo entre cristãos e não-cristãos. Por isso, a primeira iniciativa que pretende ter algum impacto é a organização de um ciclo de debates sobre os pecados sociais e os sinais de esperança na sociedade portuguesa, propostos pelos bispos na última carta pastoral, de Setembro de 2003.
“Pretendemos não só analisar a situação, mas também apontar caminhos de solução para os problemas”, diz Oliveira Martins. Também nesse sentido, o presidente do centro diz pretender ir ao encontro de jovens universitários, no que respeita à sua participação nos estudos sobre as novas realidades urbanas.
A preocupação de complementaridade com outras organizações está também nos objectivos da nova direcção. Bem como o diálogo ecuménico e inter-religioso: o CRC foi pioneiro no diálogo inter-religioso em Portugal, recorda Oliveira Martins, e agora o centro quer voltar a “lançar pontes com outras confissões cristãs e outras religiões não cristãs”.
“Muitos debates que actualmente atravessam a Europa –como o caso do véu islâmico, em França – passam pelo diálogo inter-religioso”, afirma o presidente do CRC. “Esse é o único modo de contrariar formas radicais de fundamentalismo”, acrescenta.
Também a revista “Reflexão Cristã”, que foi pioneira na produção de uma reflexão cultural e teológica católica no pós-25 de Abril, será renovada, de modo a fazer dela um espaço de debate “aberto e plural”. A publicação do CRC irá integrar redes internacionais (Europa, Brasil, América Latina) de revistas especializadas, podendo mesmo vir a publicar, para Portugal, exclusivos de revistas como as francesas “Esprit” ou “Études”.
22 de abril de 2004
Estado investe pouco mas exige medalhas
A propósito do último colóquio do CRC - Mercantilização do Desporto, Competição Saudável:
Diário de Notícias, 22.Abr.04
CIPRIANO LUCAS
«Em Portugal não se conhece a percentagem do PIB para as actividades desportivas, factor determinante para compreender o atraso estrutural do desporto no nosso país», referiu Vicente de Moura, no decorrer do debate sobre o tema «A mercantilização do desporto», promovido pelo Centro de Reflexão Cristã, no Centro Nacional de Cultura em Lisboa, e com a presença do presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP), José Couceiro, treinador do Alverca, Manuel Brito, professor universitário, e Guilherme Oliveira Martins, deputado.
O presidente COP apresentou uma síntese sobre a evolução do movimento olímpico e a sua «comercialização», referindo que Portugal é dos países da Europa que menos investem no desporto, mas é também onde «os políticos exigem resultados de alto nível, que custam milhares de contos». A média do investimento nos países da União Europeia é de 2%. «Nas minhas contas, o Estado português nem sequer chega a disponibilizar 1%... talvez 0,8%», acrescenta. Por isso, «as federações vivem com dificuldades e são obrigadas a recorrer a outras fontes de financiamento» com a envolvente comercial, adianta o presidente do COP, que de seguida defende, sem complexos, «a aposta na base da prática desportiva em detrimento da alta competição». Em traços gerais, Vicente Moura defende que deveríamos equacionar o investimento do desporto profissional numa «lógica de autonomia financeira, caso contrário... não é profissional». No entender do dirigente, vivemos em Portugal uma «situação artificial, pois o mecenato não funciona... só as empresas estatais é que aderem, o que inviabiliza a Fundação do Desporto».
Para José Couceiro, ex-presidente do sindicato dos jogadores e director da SAD do Sporting, a evolução do profissionalismo deve-se, antes de mais, «ao interesse dos governos em ganharem competições, medalhas. Marx acertou em cheio quando defendeu que a base económica iria vencer... e isso verificou-se também no desporto». Para o técnico, «o desporto viveu como uma escravatura no século XX, liderado por instituições com modelos fascistas como a UEFA e a FIFA, onde só interessa o rendimento desportivo e económico. Ainda assim, refere, hoje, o futebol é «a única actividade onde as mais-valias vão para os trabalhadores».
16 de abril de 2004
Ciclo de Colóquios - 7 Pecados Sociais 7 Sinais de Esperança
Próximo Colóquio:
Mercantilização do Desporto/Competição Saudável 20 Abril.2004 (3ª feira) às 18h30m
José Vicente Moura [presidente do Comité Olímpico Português]
José Couceiro [treinador do Alverca, antigo presidente do Sindicato dos Jogadores de Futebol]
Moderador: Manuel Brito
Local: Auditório do Centro Nacional de Cultura
Largo do Picadeiro, nº 10-1º Lisboa
(metro Baixa-Chiado)